sábado, agosto 28, 2010

a Televisão como instituição de autoridade

Finalmente consegui ver um dos mais importantes estudos realizados sobre a Televisão e os seus efeitos psico-sociais. Le Jeu de la Mort (2010) é um estudo realizado sob a forma de concurso de televisão encenado para realizar de novo o experimento de Milgram. O trabalho foi agora conduzido pelo sociólogo Jean-Léon Beauvois. O que se pretendia era estudar os efeitos da autoridade, mas aqui já não os da Ciência, mas da Televisão.

Neste estudo à semelhança da experiência de Milgram coloca-se um primeiro sujeito numa posição de "questionador/torturador" e um segundo como "respondente/vítima". O segundo é um actor, mas o primeiro não sabe, e é no fundo o verdadeiro jogador e sujeito observado. Assim o jogador tem de aplicar choques eléctricos em crescendo sempre que o outro não acerte na questão. Os choques começam abaixo dos 100 volts fazendo pouco mais do que cócegas e vão até cerca dos 500 volts onde infligem dor grave. Assim e de forma totalmente surpreendente enquanto no experimento de Milgram apenas 62% foram até ao último choque final, aqui foram 80%. Só este dado faz deste um documentário/estudo que todos deviam ver e tomar consciência. Mais dados podem ser obtidos no blog do autor do estudo.


Para mim o mais relevante desta experiência é a retirada do apresentador de cena e a constatação de que nesse caso 75% das pessoas desistem do jogo. O que explica o dado concreto da Obediência. Estamos moldados para obedecer à Televisão, para obedecer às autoridades celebradas pela televisão, como se estas soubessem distinguir o bem do mal, e nos pudessem mostrar o caminho. Em tudo semelhante à religião. Aliás no texto anterior sobre a Geração de 70 é isso que se releva, o facto de toda esta geração ter substituído o valor tão Português de Fátima da geração anterior pelo valor da Televisão.
"A instituição da televisão é de tal modo poderosa que ultrapassa já a da religião." Jean-Léon Beauvois
Mas como nos diz Shermer talvez tudo isto não seja gerado pela Religião mas antes pela necessidade que o Homem tem de acreditar. E aqui vamos ainda mais longe e mostramos nesta experiência que não é uma necessidade de Acreditar na Televisão, assim como não o foi em épocas ou regimes totalitárias mas é antes uma necessidade absolutamente humana, no seu sentido de ser gregário, de OBEDECER.

Metropolis (1927) de Fritz Lang
“A chave está na Obediência. Nós somos todos seres obedientes, porque viver em grupo é obrigar-se a regras às quais nós devemos obedecer. Leis que nós aprendemos desde o nosso nascimento. A punição ensina-nos que nós não desafiamos a autoridade sem consequência. Pouco a pouco vamos aprendendo quem são as autoridades a quem devemos obediência: pais, professores, médicos, nós não obedecemos a qualquer um... Em adultos, acreditamos que somos seres autónomos, livres e independentes, de facto somos seres sozinhos ligados aos outros através de regras e leis que nos confrontam em permanência aos poderes e às autoridades às quais nós nos submetemos sem reflectir” Narrador
Brave New World (1932) de Aldous Huxley
"Uma instituição que se forjou em 50 anos de emissões de TV de propagação de um modelo de comportamento, espalhado todos os dias pelos nossos lares.. e este mutou-se com a TV Realidade... para ganhar a TV mostrou-nos que é normal Humilhar, Eliminar, ser Sádico. É isto que torna possível este experimento, porque este modelo de comportamento está muito mais integrado do que aquele que outras instituições nos impõem.” Narrador
“Passamos 9 anos a trabalhar mas 14 anos a ver a televisão. Ver a televisão tornou-se a segunda actividade a seguir a dormir. Por isso é ela que impõe os seus valores, difunde os seus modelos ao ponto de se ter tornado uma autoridade plenamente legitima para nos levar a fazer o que ela quer. É isto que explica que 30% dos jogadores não tenham em momento algum tentado contestar as ordens.” Narrador
"Na televisão ninguém está normalmente stressada, as pessoas devem enviar uma imagem positiva e dinâmicas... isto reenvia-me para quando estou do outro lado quando estou a ver a televisão e estou bem... não ousei levantar-me porque tinha medo do público me urrar...." Jogador

"O que retenho desta experiência é que nós tivemos pessoas que eram parecidas com as outras, que não eram pessoas de excepção e 80% numa situação o mais natural do jogo, comportaram-se como possíveis torturadores." Jean-Léon Beauvois
"Este dado, 80%, reflecte o Poder que a Televisão conquistou, que é no entanto relativamente aterrador. Antes houve a massa dos fiéis, a massa dos trabalhadores, a massa dos soldados, aqui existe essa massa de indivíduos televisualizados, porque eles foram fabricados pela mesma formação, pela mesma publicidade, pelas mesmas séries e foram mesmo fabricados pelos mesmo jogos, pelos mesmo talk-shows... e esta massa é uma massa criada ao nível dos pensamentos, ao nível das atitudes, ao nível dos comportamentos, e por isso chamo a isto um Totalitarismo. Ele é tranquilo porque não nos prendem, e não nos metem na prisão.” Jean-Léon Beauvois
"Estou contente de ter participado nesta experiência, porque isto deverá ajudar-nos a ter consciência que temos de estar em alerta em relação a vocês (TV), a tudo isto... a deriva é demais." Jogador

domingo, agosto 22, 2010

3-D, um desastre estético

Vi apenas dois filmes no, actualmente muito badalado pelo marketing da indústria cinematográfica, “modo 3-D”, que na realidade é o “modo estereoscópico” de sempre - Avatar (2010) e Toy Story 3 (2010). Para mim foi suficiente, para poder classificar esta “moda” de mero interesse económico e como um desastre estético na história da arte cinematográfica.

Apesar de nem sempre estar de acordo com Ebert como no caso dos videojogos, em relação ao 3-D estou inteiramente de acordo com o seu artigo para a Newsweek. O maior problema apontado por Ebert já tinha sido apontado por Coppola entre outros, o facto de isto não passar de um mero artifício de extorsão de uma “taxa 3D” e de funcionar como elemento "aparentemente inovador" contra a pirataria e o home-cinema.

Mas o que mais me preocupa não são estas artimanhas perpetradas por executivos dos cêntimos, mas sim os impactos que isso pode ter sobre a arte em si. Não sou claramente o único a dizê-lo um dos mais claros ataques ao 3-D veio agora da parte de Christopher Nolan,


"The truth is, I think it's a misnomer to call it 3-D versus 2-D. The whole point of cinematic imagery is it's three-dimensional. ... You know, 95% of our depth cues come from occlusion, resolution, color and so forth, so the idea of calling a 2-D movie a '2-D movie' is a little misleading."
Exactamente. Não é apenas o cinema, é a pintura, a fotografia toda a arte visual possui hoje conhecimento capaz de engendrar visualmente a ilusão da terceira dimensão, ou seja da profundidade, e essa técnica chama-se perspectiva e tem hoje mais de 500 anos de história. Veja-se os dois exemplos abaixo que representam a mesma cena A Última Ceia, o de Ugolino da Siena anterior à descoberta da perspectiva, e o de Da Vinci no momento em que esta começava a implantar-se na arte.

A Última Ceia de Ugolino de Siena, 1315

A Última Ceia de Leonardo Da Vinci, 1495

Um princípio matemático criado por artistas e padronizado por matemáticos que nos permite hoje “ver através”. A obra de Panofsky sobre o assunto é algo que muito destes senhores deviam ler para perceberem o que está em jogo quando falamos de tridimensionalidade visual.

Para uma melhor compreensão do fenómeno veja-se uma excelente explicação interactiva da webexhibits.org.

A questão que se coloca então de um ponto de vista estético é, o que é que este efeito 3-D adiciona ao Cinema? Pouco, ou até diria nada, porque subtrai mais (essencialmente distraindo o espectador) do que aquilo que verdadeiramente adiciona. A estereoscopia funciona perceptivamente como se estivéssemos perante dois planos distintos. O problema é que nessa planificação apenas os personagens e objectos podem recorrer do efeito, o Espaço, esse continua igual. Assim para além de não representar qualquer acrescento, traz problemas à composição cinematográfica, uma vez que este efeito conseguido com a estereoscopia tem uma enorme tendência para se centrar no meio da imagem. Ou seja os nossos olhos vêem melhor a distinção de planos se esta acontecer no centro da imagem. Como tal os nossos olhos estão constantemente a ser atraídos para o centro. Isto é de todo inaceitável em termos expressivos para qualquer realizador que se preze.

A acrescentar a tudo isto temos ainda o facto de a projecção 3-D resultar imensamente escura. O simples facto de retirar os óculos numa qualquer sessão dá-nos uma ideia do que estamos a perder.
"The truth of it is when you watch a film in here, you're looking at 16 foot-lamberts, When you watch through any of the conventional 3-D processes you're giving up three foot-lamberts. A massive difference. You're not that aware of it because once you're 'in that world,' your eye compensates.” Christopher Nolan
“Half the light goes to one eye and half to the other, which immediately results in a 50 percent reduction in illumination.” Then the glasses themselves absorb light.” Ebert

Julgo que estas são algumas das evidências que nos devem alertar para algo que não está a ser promovido com interesse genuíno e que mesmo os próprios media pouco ou nada têm feito para desmistificar. Aliás os media têm sido embalados por todo este fogo de artifício como se isto se tratasse de uma das mais interessantes tecnologias da actualidade, sem contudo realizarem um mínimo de trabalho de análise ou mesmo procurar ouvir quem emite pareceres sobre o assunto.

sábado, agosto 07, 2010

artefactos para sorver no descanso

Antes de entrar em blackout digital pelo menos por 7 a 10 dias, deixo aqui um post com vários vídeos que vi nos últimos dias e não tive tempo de partilhar. Alguns com sabor a caramelo visual e outros com sabor a food for thought.




Video Wall: Yan City: The Past Meets the Future (2010)
de Spinifex Group
Concebido para ser projectado numa parede com 200 metros de comprimento.




Trailer: Sucker Punch (2011) de Zack Snyder


Curta: La Marche Des Sans Nom (2007) de Jean Constantial, Lucas Vigroux e Nicolas Laverdure. Projecto de estudante da Supinfocom.




Instalação: IN/JECT (2010) de Herman Kolgen.
“A human body is injected in a cistern. Over the course of 45 minutes, the pressure of the liquid exerts upon him multiple neurosensorial transformations. From his epidermal fiber to his nervous system, he reacts to influxes of viscosity in this liquid chamber. His cortex, lac king oxygen, gradually loses all notions of the real. Like a human guinea pig: a matter-body whose psychologica l states are the object of kinetik tableaux, of singular temporal spaces.”


Trailer de Jogo: Gears Of War 3 “Ashes To Ashes” (2011)
de Vernon R. Wilbert Jr.




Jogo iPhone: Rekord Makers game por Moriceau & Mrzyk



Documentário: The Story of Stuff (2009) por Annie Leonard
via @David Mota
"The Story of Stuff exposes the connections between a huge number of environmental and social issues, and calls us together to create a more sustainable and just world. It'll teach you something, it'll make you laugh, and it just may change the way you look at all the stuff in your life forever. "


Curta documentário: The Mast Brothers (2010) de Brennan Stasiewiccz
via @Luís Santos

quinta-feira, agosto 05, 2010

Documentário sobre a Geração de 70

Uma na Bravo Outra na Ditadura (2010) é um "documentário retrato da geração nascida em Portugal pela revolução de Abril", de André Valentim Almeida* acabado de estrear na Web, com cerca de uma hora e de acesso integralmente gratuito.

Conta com mais de uma dezena de entrevistas, entre as quais, algumas figuras do panorama criativo nacional: Fernando Alvim, Gonçalo M. Tavares, Filipe Pedro, Inês Fonseca Santos, Inês Nadais, Jacinto Lucas Pires, Joana Vasconcelos, João Bonifácio, Jorge Guerra e Paz, JP Coutinho, JP Simões, Nuno Cardinho, Pedro Mexia, Pedro Ribeiro, Raquel Bulha, Raquel Vieira da Silva, Valter Hugo Mãe, Vanessa Granja.

Técnica e criativamente muito bom. O autor demonstra ao longo de todo o trabalho um sentido analítico bastante apurado na justaposição e inserção de imagens que apelam à construção de abrangentes contextos polissémicos. Apesar do recurso visceral à montagem paralela, de base eisensteiniana, este é um trabalho clássico de construção narrativa audiovisual que se socorre de uma dupla de narradores para nos levar ao longo de uma viagem no tempo atravessando palavras, esgares e sorrisos de mais de uma dezena de entrevistados, com progressão e arcos narrativos perfeitamente delineados. Ao longo de 60 minutos somos brindados com imagens, sons e textos que deram forma à paisagem dos últimos 35 anos, embora com uma maior preponderância para a década dos anos 80.

Segundo o autor**,
“O documentário não foi o resultado de nenhuma encomenda mas sim da vontade de trabalhar um tema que, a meu ver, estava estranhamente sub-representado no espaço documental português.”
É verdade que o tema está muito ausente da nossa esfera mediática. Tirando as datas comemorativas, o nosso cinema, música e arte pouco falam dos factos. Existem muitos medos reprimidos, e julgo que em parte o trabalho de José Gil, Portugal, Hoje - O Medo de Existir (2004) teve o sucesso que teve porque as pessoas se revêem nesse mesmo medo. Agora a ideia não é totalmente nova. Traçar um perfil da geração do 25 de Abril é algo que vem sendo feito nas datas comemorativas pelos canais de televisão, foi quando fizemos 30 anos, quando fizemos 35, e voltará a ser quando fizermos 40. Digo fizermos porque eu próprio nasci nesse ano de cisão da nossa história. Algo mais abrangente foi no entanto feito pelo António Barreto num documentário realizado pela Joana Pontes, Portugal Um retrato social (2007) com condições completamente distintas, não só de produção mas de preparação do tema. A ver nomeadamente o primeiro episódio.


As diferenças são claras nos objectivos e mais ainda nos meios de produção, se pensarmos que este documentário com todas as características de um produto profissional foi desenvolvido por uma pessoa apenas. Que os custos foram suportados inteiramente pelo autor e que este nos disponibiliza agora de forma inteiramente gratuita a obra completa na web. Para percebermos melhor os meandros da produção deste documentário nada melhor que seguir as palavras do André,
“foi um processo muito individual, caseiro, com as contrariedades e alegrias de qualquer processo de produção multimédia. Não é fácil, realmente, entrevistar pessoas e teres a teu cargo todo o processo: mochila às costas com a câmara e micro, tripé e foco de luz sob o braço, montar tudo em tempo recorde -luz, câmara, microfone de lapela-, sentar e fazer a entrevista, arrumar tudo de novo. Difícil mas possível, e o documentário pronto é a prova disso. Posso dizer que os entrevistados mais conhecidos da praça pública foram todos muito acessíveis, mais do que eu esperaria, não colocaram restrições à realização do documentário mesmo sem perceber a que espécie pertencia. Posso também acrescentar que é muito difícil seleccionar arquivo de entre milhões de opções que existem, e todas tão sedutoras: entre filmes, séries, publicidade, são incontáveis as referências que apetece incorporar mas é totalmente impossível fazê-lo.!"
Em termos técnicos é muito importante este factor do one-man-show que nos faz reflectir sobre todo o processo de construção da linguagem audiovisual na actualidade.
“toda a produção e distribuição despoletou (e continua a despoletar) uma série de reflexões, nomeadamente o facto de ter conseguido fazer um documentário praticamente sozinho - nos dias de hoje continuo ainda a fascinar-me com o potencial da tecnologia - ou a distribuição viral possível através da Internet”
Não podemos esquecer o facto de falarmos de um produto com características técnicas e estéticas profissionais e não de apenas um pequeno filme para YouTube. Não que as tecnologias sejam diferentes, como podemos ver na sua enumeração aqui abaixo, estas estão alcance da maior parte de nós,
“Utilizei o Final Cut Pro para a edição de vídeo, com algumas escapadelas ao Soundtrack Pro para alguns trabalhos de áudio mais específicos; o Compressor e o MPEG streamclip para transcodificações (MAC, claro está). A câmara foi uma Panasonic AG-HMC150.”
Poderíamos então questionar que o factor “tempo dedicado” aqui seria determinante, alguém que se dedique a tempo inteiro à execução de um trabalho. No entanto atente-se à duração e timings de execução do projecto,
“O trabalho foi feito nos tempos livres e nem sempre de forma contínua. As entrevistas foram realizadas entre o final de 2008 e início de 2009 (alguma pesquisa no mesmo período); a recolha de arquivo decorreu entre Março e Maio de 2009; a escrita do argumento nalguns dias de Maio (1 semana, provavelmente); a rodagem das sessões com o Jorge e o João ocorreram em 2/3 dias algures entre Junho/Julho de 2009; a pós-produção entre Julho-Setembro de 2009, com pequenas afinações até ao início de 2010.”
Impressionante. Ver como tecnologia acessível e com recurso ao pouco tempo não-útil se pode chegar a um produto deste nível. Por outro lado levantam-se outras questões como a duração de um documentário que vai ser distribuído pela Web, não será uma hora de filme demasiado? Mas a questão é o próprio tema e a sua dimensão, que no caso do António Barreto custou sete documentários de uma hora, aqui o autor diz-nos,
“Inicialmente tinha uma versão com 2 horas (um bocado esquizofrénica com tantas referências) e considerava impossível reduzi-la... tive de dar tempo a mim mesmo para conseguir ter a coragem de a ir cortando.”
Esta necessidade de tanto dizer, e tanto para dizer deve questionar-nos a nós e a todos os que se dedicam à comunicação e expressão artística, que está na hora de começarem a falar, de criarem e trabalharem sobre algo que é nosso que nos pertence e que é importante que nunca esqueçamos. Basta pensar no que se passou em Portugal em 1928, ver quem tomou o controlo e porque razões e depois para onde isso nos levou (atente-se no anúncio abaixo que ganhou o Leão de Ouro de Cannes em 1988). Existe uma clara necessidade de não esquecermos o que se passou e que de algum modo se está por aí a começar a redesenhar, é só ver as recentes tentativas de alteração da nossa Constituição.


E porque é à politica que somos conduzidos por um documentário destes que é também inevitável que analisemos o que nos diz parte da nossa geração. Sim parte, porque esta não é, e digamos que dificilmente o poderia ser, representativa de todos nós. Esta é uma selecção do autor do texto,
“As pessoas entrevistadas nasceram, como escrevi na sinopse do filme, "pelo 25 de Abril", tanto pouco antes como pouco depois. Indivíduos que cresceram com a Revolução. Tentei cobrir um leque o mais diversificado possível de áreas: profissionais da rádio, dos media, literatura, jornalismo, teatro, artes plásticas, música, cinema, necessariamente com boa capacidade de comunicação e expressão por razões evidentes. Foi necessário, também, encontrar perfis e feitos diferentes para que encontrasse leituras diferentes daquilo que é a geração: pessimistas, optimistas, cínicos, revivalistas...”
Temos aqui um recorte claro da nossa sociedade, o espectro criativo da mesma, que por sinal é o que mais domina a nossa paisagem cultural. Mas talvez por isso não fosse mau ter tentado ouvir outras vertentes, os agricultores, as classes operárias, as pessoas que nos atendem todos os dias nos serviços, os médicos e enfermeiros que tratam os problemas do corpo (e alma) da população, os juízes e advogados da barra do tribunal que são conduzidos pelas tragédias humanas, os técnicos e engenheiros que inovam todos os dias, no fundo todos aqueles profissionais que fazem de Portugal o país que é hoje.

Porque no final é com alguma tristeza que sinto na maioria dos discursos um claro desprezo por tudo o que foi aquela revolução, e principalmente por tudo o que representam as pessoas que a construíram. Para além de que esse desprezo claramente só poderia conduzir à falta de perspectivas para o futuro da geração aqui em causa. Este é um claro problema de uma parte da nossa sociedade, mais problemático que seja daquela que mais se dedica a interpretar o que somos, pois são estes os que criam as novas realidades, as novas ideologias (ver texto sobre o ensaio audiovisual Versions (2010)).

Existe muita reflexão, da parte dos entrevistados, ao longo do documentário completamente decalcada dos discursos vigentes nos media. O que não admira uma vez que grande parte deles são actores dessa arena. Mas não são só as frases feitas, pior que isso, são conceitos feitos sobre os quais pouco se reflectiu, ou noutros casos se reflectiu mas a partir de uma Torre de Marfim sem contacto, sem noção das texturas da realidade.

Talvez agora deva perguntar, sendo um documentário retrato, e sabendo nós que qualquer objecto de comunicação audiovisual é sempre uma interpretação do mundo realizado pelos olhos de alguém, não caberia ao autor criar mais sentido de tudo isto? Se poderia ter ido mais longe nas questões, pergunto também porquê atribuir um papel tão de superfície e passivo aos narradores? Por outro lado questiono-me a mim próprio se não é mesmo este lado menos bom, em minha opinião negativo, que faz do documentário uma peça tão importante no panorama audiovisual nacional. Sei bem que o autor está ciente disto, o título é claro em dizer ao que vem.

Vejamos então agora em maior detalhe o pior dos discursos propagados pelo documentário. À semelhança da opção deliberada do André em não rotular os entrevistados, dado o seu desejo de representação de uma "massa anónima" em detrimento das "individualização", não referenciarei os autores das frases aqui transcritas. Mais ainda, neste caso servirá de estímulo a quem ainda não viu, para ver e procurar descobrir quem disse o quê. Assim e de uma forma geral é sistematicamente dito que a culpa é dos outros, da geração anterior,
“A geração anterior entalou-nos”
“Não nos foi transmitido um modelo uma fórmula para transportar o país”
E alguém lhes transmitiu a eles um modelo para fazer uma revolução?
“As gerações anteriores dizem que davam mais valor às coisas... não davam nenhum valor às coisas... há esse mito... nos casos mais honestos olham para a geração de 70 com Inveja.”
Mas então o que dizer da abundância em que se vive hoje face a toda a escassez em que se viveu, em Ditadura e com duas Grandes Guerras?
“[A nossa geração] é uma geração traída, a quem foi prometido muita coisa...”
“E o que se está a verificar é uma grande injustiça. A geração que teve todos os direitos... sociais, laborais, etc., e a geração que não tem esses direitos”
Mas afinal eles têm inveja de nós, ou nós é que temos inveja deles?
E se essa geração viveu debaixo de uma ditadura como é que teve todos esses direitos?
“O nosso futuro é uma treta... ainda há um ou dois que passados 15 anos de faculdade, ainda não fazem nada... Temos que andar mais anos na escola para conseguir o mesmo que os nossos pais”
Não será natural e desejável que tenhamos que estudar mais do que a geração anterior?

Existem no entanto algumas reflexões inspiradoras, porque nos fazem questionar e olhar para o futuro,
A “confusão entre a moralidade e a legalidade” é algo que nos impede de nos revoltar contra as más leis e regozijar as boas leis.

“Seres livre para fazeres as tuas decisões, sobre o teu corpo, sobre o teu intelecto, sobre a tua vida... é um luxo que muitas mulheres durante muitas gerações não tiveram ”.

“Nós estamos onde está a nossa atenção” em relação ao poder dos media, da informação globalizada.

“Nós somos mais tolerantes, porque não estamos a seguir o modelo dos nossos pais, se assim fossem seriamos conservadores, e não, nós somos criadores, isto é um Privilégio”
Se quisermos resumir o retrato maioritariamente plasmado neste documentário, duas frases de dois entrevistados são suficientes,
“Geração dada à nostalgia precoce”
A evidência desta afirmação verifica-se de forma acentuada em programas nos media que dado o seu sucesso têm inclusive conseguido recuperar para o mercado actual produtos descontinuados há muito.
“Uma geração um pouco mimada do ‘eu tenho direito a tudo’”
Eu diria que a geração aqui representada é a da adoração ao monólito que nos entrou pela casa adentro nos anos 80. Que viveu toda uma década de ilusão emanada desse monólito e que hoje sente uma nostalgia melancólica dos tempos em que a mensagem era apenas um alinhamento, numa só direcção e partilhada, por igual, por toda a comunidade.


Agora a questão é se toda esta geração de 70 é realmente assim? Ou falamos da geração que conseguiu vingar na vida da que está hoje nos media, que escreve, que filma, que fala. De uma classe urbana e licenciada que ocupa posições dominantes na produção de representações do país?


Porque muito do que vemos neste documentário é os entrevistados falarem sobre os outros. Os outros do passado, os vilões (as representações que têm dos pais) e os outros do presente, os desgraçados (a representação que têm da suposta geração que não eles). A falta de reflexão sobre o Portugal real, sobre o objecto em si e não sobre a interpretação do mesmo pelos media, leva a que não exista aqui muita reflexão para o futuro.




[*] Conheço o André há muitos anos, passámos pela mesma licenciatura, no entanto optei por realizar uma análise do documentário distanciada dessa relação, ainda que admita que esta possa ter algum impacto sobre as minhas palavras.
[**] As palavras do autor transcritas neste texto foram retiradas de uma entrevista realizada por e-mail no início de Agosto 2010.

quarta-feira, agosto 04, 2010

mundos geométricos e difusos

Não resisto a deixar a animação de Eran Hilleli aqui no blog, depois de já a ter deixado no Facebook. Já a revi várias vezes e vi outras do autor e denotam claramente um traço, um estilo próprio que se pode definir de minimalismo narrativo aliado ao detalhe técnico-estético.

Esta sua animação de fim de licenciatura, na Bezalel Academy em Israel, demonstra um amadurecimento face aos outros projectos e um avanço no domínio de novas técnicas nomeadamente do 3d (o filme foi criado com Maya e After Effects), contudo o traço e a poética do movimento é algo que vem de dentro si e que se manifesta em quase todos os seus trabalhos.

A primeira vez que vi Between Bears (2010) fiquei completamente impressionado pela criatividade no uso de geometrias e sua mescla com gradientes de pasteis tão perfeitos.




A ver em fullscreen

terça-feira, agosto 03, 2010

Filmes de Julho 2010

No mês de Julho devo ter batido o recorde de consumo de lixo cinematográfico com oito filmes a caírem na categoria Insuficiente ou a evitar. De resto fiquei muito impressionado com Agora e adorei a Alice de Tim Burton talvez mais porque não tinha expectativas para o filme e este conseguiu claramente surpreender-me face a tudo o que já conhecia do universo de Lewis Carroll. Digo isto também porque na mesma corrente estética fiquei um pouco desiludido com o trabalho do companheiro de outros filmes de Burton, Henry Selick, em Coraline.

xxxx Alice in Wonderland, 2010, USA, Tim Burton

xxxx Agora, 2009, Spain, Alejandro Amenábar

xxx Green Zone, 2010, USA, Paul Greengrass

xxx Tetro, 2009, USA, Francis Ford Coppola
xxx A Serious Man, 2009, USA, Joel Coen

xxx The Lovely Bones, 2009, USA, Peter Jackson
xxx Incendiary, 2008, UK, Sharon Maguire
xxx Marathon Man, 1976, USA, John Schlesinger

xxx Breakfast at Tiffany's, 1961, USA, Blake Edwards
xxx War and Peace, 1956, Italy/USA, King Vidor

xx Night at the Museum 2, 2009, USA, Shawn Levy
xx X-Men Origins: Wolverine, 2009, USA, Gavin Hood

xx Land of the Lost, 2009, USA, Brad Silberling

xx Coraline, 2009, USA, Henry Selick
xx What Just Happened, 2008, USA, Barry Levinson
xx The Life Before Her Eyes, 2007, USA, Vadim Perelman
xx I'm Not There, 2007, USA, Todd Haynes
xx Stay Tuned, 1992, USA, Peter Hyams

x All the Boys Love Mandy Lane, 2006, USA, Jonathan Levine
x The Pink Panther 2, 2009, USA, Harald Zwart
x Brüno, 2009, USA, Larry Charles
x 4 Copas, 2008, Portugal, Manuel Mozos
x Sahara, 2005, USA, Breck Eisner
x In the Name of the King: A Dungeon Siege Tale, 2007, Germany, Uwe Boll
x American Pie Presents: The Book of Love, 2009, USA, John Putch
x Smoother, 2008, USA, Vince Di Meglio


[Nota, Título, Ano, País, Realizador]
[x - insuficiente; xx - a desfrutar; xxx - bom; xxxx - muito bom; xxxxx - obra prima]

domingo, agosto 01, 2010

Essências e suportes (DVD, Bluray e Kindle)

Está o livro, em papel, ameaçado? Uma discussão realizada no Facebook leva a conversa numa espiral de argumentos pró e contra. E assim ao passo que os argumentos do contra se preocupam em justificar a continuidade do suporte, os do pró já só se ralam com saber qual será a tecnologia vencedora na corrida para o El Dorado digital.
O que aqui discutimos é o "Livro" (por arrasto as revistas e jornais) enquanto Narrativa e não o estatuto do Papel. Essa seria toda uma outra discussão relacionada com questões de “preservação de memória” e que remontam a milénios de registos de conhecimento sendo a sua mais antiga expressão conhecida as figuras de Altamira e Lascaux.

Imagens das Cavernas de Lascaux com cerca de 30,000 anos

Mas e “o livro, em papel, tem os dias contados.”?
“nada irá substituir o folhear de um bom livro, o seu cheiro, as suas letras impressas...” @Cristela
Pois, mas tenho olhado para as prateleiras que preenchem a quase totalidade do meu escritório com livros e penso, dentro de pouco tempo acontecerá a tudo isto o que já aconteceu com os meus Vinyl, com as minhas VHS, com os meus CDs e está a acontecer com os DVDs.

Montagem de imagens a partir de WIHW

Os Vinyls, cerca de 300, estão metidos num armário na casa dos meus pais, talvez a última vez que tenha colocado um a tocar no gira-discos tenha sido há mais de 15 anos. As cassetes VHS que foram a minha maior relíquia, o meu tesouro de conhecimento, com tantas obras raras conseguidas com tanta má qualidade. Tinha filmes do Dreyer, Welles, Eisenstein, Lang, Jarmusch entre muitos outros que pouco mais se via que sombras derivado de serem cópias em 4 ou 5ª geração, algumas inter-sistema, de Beta ou V2000, mas guardava-as religiosamente dada a sua raridade. E para quê? Entretanto todas estas obras se tornaram facilmente acessíveis, todas estas raridades tenho-as hoje em DVD e muitas delas em cópias restauradíssimas a partir das melhores películas ainda existentes, casos como Nosferatu (1922) ou Metropolis (1927) podem hoje ser vistas com melhor qualidade plástica do que provavelmente foram vistos na sua estreia.

Metropolis (1927). À esquerda imagens do DVD Eureka de 1998, à direita a versão restaurada de 2003 [1]

E assim há cerca de 5 anos depositei as mais de 500 cassetes num aterro público, tenho pena de não as ter fotografado, mas para quê, mais uma recordação materialista? Em 2000 quando iniciei a minha colecção de DVDs com vista à substituição do arquivo VHS, dei-me conta que todos os CDs que tinha nas prateleiras eram inúteis, porque não tinha naquela altura nenhum leitor de cd no quarto em que morava, e assim a música que ouvia era via PC. E o que começou a acontecer foi a preferência por escolher música a partir da enorme base de dados mp3 presente no disco duro e não ir às prateleiras escolher o CD.

Assim peguei naquelas discografias de AC/DC, Metallica, Zeca Afonso, Mike Oldfield, nas centenas de Bandas Sonoras e muita coisa que já nem me lembro e vendi praticamente tudo no Miau.pt, o acabado de criar Ebay português. Dos cerca de 400 CDs, restam uns 30 que considerei guardar (ex.Tindersticks, Tom Waits) que estão numa caixa dentro do armário do quarto.


Com o dinheiro que fiz na venda comecei a aquisição religiosa de DVDs, das suas edições super-especiais, importadas dos EUA, Austrália, UK, Hong-Kong. Entre 2000 e 2006 comprei mais de 500 dvds. Comprei centenas de DVDs a 30, 40 e 50 euros cada edição, por serem Criterion ou edição especial de 2, 3 e 4 discos, com caixa “digipack”, “tin can” ou outra.
Ao mesmo tempo em que iniciava a aquisição desenfreada de DVDs começava paralelamente a colecção ainda mais desenfreada de filmes em formato DivX através de download, trocas, cópias, compressões. Cheguei a ter uma grande gaveta com mais de 1300 DivX em pequenos envelopes de papel e ordenados por ordem alfabética. Depois com o aparecimento dos gravadores DVD, comecei a colocar entre 3 a 6 filmes por disco, e nessa fase consegui mais uns 150 dvds, ou seja mais uns 500 a 600 filmes. Tudo isto entre 2000 e 2007.


Mas por volta de 2006 a presença cada vez mais maciça de material fílmico online, a facilidade de acesso aos mesmos, começou a colocar em causa a razão de uma colecção tão extensa de DVDs e DivX que me ocupava muito espaço e que pouco uso tinha na generalidade. Isto porque o objectivo da posse do registo era poder ter sempre acesso às obras sempre que precisasse de realizar um qualquer trabalho e para isso serviu muitas vezes. Contudo a rede foi-se revelando cada vez mais eficaz no acesso às obras e hoje é capaz de dar resposta a grande parte das nossas demandas. De resto cada vez menos fui tendo tempo para ver obras mais do que uma vez, como fazia nos anos 80 e 90.

Comprei muitos dvds que nunca cheguei a ver naquele formato, comprei apenas para ter na prateleira, Once Upon a Time in America (1984), Raging Bull (1980), Scarface (1983), The Last Emperor (1987), Schindler’s List (1993) entre outros, não por não gostar dos filmes mas por já os ter visto mais de 4 ou 5 vezes, alguns mais do que isso até, no Cinema, na TV, em VHS. Apocalypse Now (1979) é o filme que mais vezes vi (acima das 20).

Apocalypse Now de Francis Ford Coppola (1979)

Assim hoje já não colecciono Divx, tenho apenas uma pequena parte guardada em 2 ou 3 caixas de CDs da Ikea, o resto joguei no lixo, falta de qualidade da cópia ou do filme. Porque nisto das colecções, quando se começa, arrecada-se muito lixo em favor do número.
Dos DVDs que passaram os últimos dois anos em caixas, "vivem" agora uma parte no escritório e outra parte permanece ainda nessas caixas. Deixei de os adquirir, o factor já acima enunciado de fácil acesso a todo o cinema, e o consumo desenfreado que acabou por trazer ao cimo o facto de que grande parte daquelas edições especialíssimas não passavam de adereços de marketing.
É claro que em face deste estado de coisas o aparecimento do Blu-ray acaba por surgir apenas como mais um brinquedo. Ainda que se possa sentir a diferença num ecrã de 40’ a verdade é que o impacto está longe de ser suficiente para justificar a re-aquisição. Não que por vezes não sinta a tentação, em casos como Matrix (1999) ou Lord of the Rings (2001) majestosos objectos visuais que têm a ganhar com esta nova possibilidade.

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Como poderão ver depois de todo este historial, o que aprendi foi que o conteúdo vai mudando de suporte, mas permanecendo igual a si próprio, o suporte não é mais do que um elemento puramente materialista sem qualquer valor ou efeito estético sobre a obra. O texto, a música ou filme são artefactos intangíveis e como tal possuem um discurso próprio que é independente do suporte. Nos dias de hoje ver um filme numa sala de cinema vazia, como tantas vezes fiz nas sessões do meio da tarde, ou ver esse mesmo filme em casa com condições Home Cinema, faz pouca ou nenhuma diferença. Assim como ouvir um disco, em Vinyl, CD ou MP3. Por isso ler um romance em papel, no Kindle ou no iPad tem as suas particularidades mas não deixam de suscitar os mesmos mundos, de desencadear os mesmos pensamentos associativos, as mesmas emoções. O que aqui falamos é meramente de suporte, e esse está longe de sequer ser parte do media porque o seu impacto sobre a obra é diminuto. O media é o texto, assim como no cinema é a imagem ou na rádio é o som e esses sim condicionam os discursos. Aliás a leitura vertical da web não é algo novo, já o fazíamos antes do livro com os papiros.
Por tudo isto a desmaterialização é o fenómeno mais interessante operado pelas tecnologias de informação, pela digitalização do mundo. A desmaterialização nada destrói daquilo que é a essência do romance, do filme ou da música. A desmaterialização abre apenas novas possibilidades aos media, ao criar a possibilidade de convergência como no exemplo do Vook dado pelo @Sergio.

What is a Vook?

Ou ainda os exemplos mais interessantes que passam pela alteração radical do discurso com a inserção da interactividade e controlo do leitor sobre as obras.

Heavy Rain de David Cage (2009)

Quanto à tecnologia vencedora, não sei, duvido que seja uma única. Digitalmente o formato PDF é reconhecido, mas em termos de harware são muitas as opções. O Kindle foi inteiramente concebido para ser o mais semelhante ao livro possível em termos perceptivos. Por outro lado o iPad permite conteúdos multimédia além do texto. Muitos mais aparecerão, cada um com as suas vantagens e desvantagens. Como sempre devemos comprar o que precisamos no momento e não aquilo que vamos precisar daqui a um ano.


Indo um pouco mais longe na desmaterialização, e entrando em algo mais polémico.

1 - O que dizer da pintura?

A visualização de uma tela num museu é diferente da sua visualização num ecrã? A primeira vez que vi a La Gioconda no Louvre, há alguns anos atrás senti deslumbre e tremuras por todo o corpo, mas na segunda vez, agora recentemente, esse sentimento não ocorreu. Talvez porque o sentimento de que estamos a falar não fosse potenciado pelo quadro mas por todo o seu contexto cultural. Assim sendo justificar-se-à a deslocação das pessoas por milhares de kilometros para verem algo que podem ver à distancia de um clique em altíssima resolução proporcionado pelo próprio Louvre? Todo este frenesim em volta da pintura não será antes criado e mantido por uma elite que se socorre do fenómeno para poder servir-se do mesmo como investimento seguro? Claramente que existem muitas obras que podem apenas ser apreciadas na totalidade in loco, obras demasiado grandes ou que fazem uso de técnicas de relevo. E por isso mesmo esta lógica não se aplicaria à Escultura ou Arquitectura.

2 - E do desporto ao vivo?

Neste último mundial o Nelson Mandela deslocou-se ao estádio para saudar os presentes na final da copa. Fiquei boquiaberto quando li que ele tinha no entanto regressado a casa para ver o jogo na TV antes de este se ter iniciado. Na altura pensei, claro, a experiência do jogo é mais clara, pode ver-se maior detalhe e podem ver-se repetições. Claro que neste caso Mandela tem uma idade algo avançada para as emoções que se vivem num estádio. Mas então se viu o jogo em casa, é porque estas não provém do jogo mas do público. Ou seja o fenómeno social é a base da experiência futebolistica, ora para quem a dispense, ver o jogo num ecrã ou num estádio será algo bastante aproximado.