domingo, agosto 20, 2017

Os Miseráveis (1862)

É um romance histórico, mas pelo número de personagens, extensão e eventos quase que o poderíamos qualificar de saga, uma saga social. Socorrendo-se de um período de grande alteração civilizacional, o pós-Revolução Francesa de 1789, Victor Hugo trabalha várias personagens históricas responsáveis pela época, mas escolhe para veículo de introdução aos factos e eventos, as classes mais baixas e desprotegidas do sistema — os ex-prisioneiros, os órfãos, as prostituas, os pobres — os miseráveis. Deste modo, serve-se do seu sucesso e influência na sociedade francesa para ao longo de 1300 páginas, e enquanto conta uma história, dissertar sobre as leis e as morais da época. Nem tudo é perfeito mas o seu sucesso e resistência ao teste do tempo demonstram a força e atualidade da sua mensagem.

Nova tradução de José Cláudio e Júlia Ferreira para a Relógio d'Água, publicada em Maio 2017.

“Os Miseráveis” foi publicado em 1862 quando Victor Hugo tinha 60 anos e era já um escritor reconhecido pelos pares a ponto de ser membro da elitista Academia Francesa desde 1841, respeitado pela sociedade política tendo sido eleito para a Assembleia Nacional em 1848, e respeitado pela sociedade em geral, não só pela sua poesia mas também pelo seu enorme sucesso obtido com “O Corcunda de Notre-Dame”. Exilado em Inglaterra a partir de 1851 com o golpe de Napoleão III, Victor Hugo sabia bem o que continuava a representar para a França, daí que este livro, que foi escrito ao longo de quase 20 anos, tenha sido visto pelo próprio como uma espécie de legado a essa França, ainda que de desejos universalistas. Deste modo, esta obra, apesar dos problemas que irei avançar à frente, para além da história que conta, é um manifesto sobre a vida em sociedade, no qual o autor procura expressar os seus ideais e desejos para construir aquilo que acreditava poder vir a ser um mundo melhor.
"A Igualdade tem um órgão: a instrução gratuita e obrigatória. Pelo direito ao alfabeto, é por aí que devemos começar. A escola primária imposta a todos, a escola secundária oferecida a todos: é essa a lei. Da escola idêntica nasce a sociedade igual. O ensino, sim! Luz! Luz! Tudo vem da luz e tudo para lá volta. Cidadãos, o século XIX é grande, mas o século XX será feliz."
A prosa de Victor Hugo é irrepreensível. Se podemos ceder à tentação de comparar Jean Valjean com Edmond Dantés de Alexandre Dumas, as similaridades ficam-se pelos meros traços gerais da trama, já que toda a arte poética de Victor Hugo é tão elaborada e graciosa, fruto de um virtuosismo que está completamente fora do alcance de Dumas. Diga-se que a nova tradução apresentada agora pela Relógio d’Água faz verdadeiro jus à obra original, o que nos permite, em português, sorver o que de melhor nos deu a pena de Hugo. Se dúvidas houvesse, ser objeto de dedicatória de Balzac, um dos grandes pilares do cânone literário ocidental, e na obra por si considerada maior — “Ilusões Perdidas” (1843) — estando Victor Hugo ainda vivo e com apenas 41 anos, diz quase tudo o que se pode dizer sobre a qualidade da sua escrita, assim como pessoa.

É essa pessoa que temos em “Os Miseráveis”. Podemos dizer, como já foi dito antes pelos irmãos Goncourt que a obra roça o “artificial”. Não raras vezes damos por nós a pensar: mas existiria alguma vez alguém tão puro como o Bispo de Digne; ou como a freira que nunca mentiu; ou com a submissão infinita de Fantine; ou com a honra do dever de Javert; para não falar da gigantesca conversão e humildade inesgotável de Jean Valjean? Como diria Flaubert também, parece faltar “verdade”, são tantas as coincidências que o enredo provoca que é impossível não levantar o sobrolho. Mas dissecando a obra, dedicando-lhe a devida atenção, procurando compreendê-la no seu contexto histórico e do seu autor, podemos aos poucos começar a desvelar camadas não imediatamente visíveis.

A artificialidade aqui em questão é apenas o modo narrativo escolhido por Victor Hugo para lançar os seus dados, é um contar de história popular que para tal recorre a heróis, impossibilidades, e mitos. Victor Hugo disse-o ao editor: “Eu não sei se será lido por todos, mas foi escrito para todos”. Ou seja, Victor Hugo tal como Hollywood faz hoje, procurou o veículo ficcional que lhe pudesse oferecer o maior alcance possível, mas por ser a pessoa que era, não o fez pensando em ganhos financeiros, mas antes como manifesto, com objetivos puramente ativistas. Assim, se à superfície “Os Miseráveis” parece não passar de uma manta de mitos recontados ao longo da nossa história, por debaixo existe mais do que as pequenas lições que esses mitos serviam, existe uma vontade renovadora, reformadora, e progressista. Existe um ideal de sociedade, um olhar político encantado à procura de um mundo melhor, como fica explícito neste parágrafo quase no final da obra:
“O livro que o leitor tem neste momento diante dos olhos é, do princípio ao fim, no seu conjunto e nos seus pormenores, quaisquer que sejam as intermitências, as exceções ou as fraquezas, o caminho do mal para o bem, do injusto para o justo, do falso para o verdadeiro, da noite para o dia, do apetite para a consciência, da podridão para a vida, da bestialidade para o dever, do inferno para o céu, do nada para Deus.”
O grande sucesso da obra de Victor Hugo pode não advir desses seus ideais para o mundo, embora seja por eles que é ainda hoje uma obra de referência obrigatória em qualquer país que siga o cânone ocidental. É um sucesso que se baseia no uso dos mitos eternos, dos arquétipos e do monómito do herói que facilmente se cola aos anseios dos seus leitores. Mas não é só, no trabalho de Victor Hugo existem elementos de pura genialidade narrativa, a um nível que nos habituámos a encontrar apenas em trabalhos da classe de Dostoiévski. Falo da acuidade e agilidade com que desenha os devires dos seus personagens, como os interroga e expõe o seu interior, conduzindo-nos a ver e a sentir como eles, nomeadamente no desenho das condições de escolha em momentos decisivos para os seus destinos, os dilemas. Damos por nós, estacados frente à página de papel, como que frente a uma parede, numa bifurcação em que os dois caminhos se opõem, sendo igualmente relevantes mas autoexcludentes. Apetece fechar o livro e não ler para não saber o que vai ser deixado cair: deve deixar morrer e salvar-se, ou salvar e morrer; deve expor-se e perder toda uma vida de conquistas para salvar um outro, ou deve permanecer na sombra com o peso na consciência... O que Victor Hugo busca aqui é acima de tudo o escrutinar do humano, como nos diz no seguinte parágrafo:
“Há um espetáculo maior do que o mar: é o céu; há um espetáculo maior do que o céu: é o interior da alma.
Escrever o poema da consciência humana, nem que fosse a respeito de um único homem, nem que seja a respeito do mais ínfimo dos homens, seria fundir todas as epopeias numa epopeia superior e definitiva. A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das intenções, a fornalha dos sonhos, o antro das ideias de que nos envergonhamos: é o pandemónio dos sofismas, o campo de batalha das paixões. Em certos momentos, experimentem olhar para a face lívida de um ser humano que está a refletir, olhem mais além, observem-lhe a alma e contemplem-na nessa obscuridade. Sob o silêncio exterior, desenrolam-se aí combates de gigantes como em Homero, batalhas de dragões e hidras e revoadas de fantasmas como em Milton e espirais visionárias como em Dante. Que coisa sombria é este infinito que cada homem arrasta consigo e pelo qual regula com desespero as vontades do cérebro e as ações da vida!” 
Naturalmente muitas destas questões funcionam apenas no calor da história que está a ser contada, porque rapidamente percebemos que o valor da vida não é o mesmo sempre, nem para todos. Os soldados que morrem num campo de batalha, ou os manifestantes que morrem numa barricada, parecem não passar de peões. É contudo interessante verificar como esta questão tem também sido discutida noutros meios narrativos, sendo bastante comum no cinema de Hollywoood, ou nos videojogos, sendo reconhecido pela sua definição psicológica, “dissonância cognitiva”. Isto deve-se em parte ao uso dos mitos, o modo como estes são facilmente aceites como supra-realidade, analogias de um mundo mágico, no qual as condições de verdade são por vezes suspensas, para assim se poder intensificar a emoção e enfatizar o sentimento pretendido. Não é por acaso que Victor Hugo cita inúmeras vezes Homero, Dante ou Milton ao longo do texto.

Dito tudo isto, justificadas as razões porque considero “Os Miseráveis” uma obra de referência e que continuará a eternizar-se, quero contudo apontar o ponto que considero, não como negativo, mas como menos conseguido artisticamente em toda a obra, e que é talvez aquele que fez Baudelaire, em privado, considerar o texto “incompetente”. Falo das digressões e ensaios que perfazem nada menos que o 1/3 do livro, 450 páginas em 1300. Claro que como disse um dos biógrafos de Victor Hugo, "as digressões dos génios são facilmente perdoadas", mas não quero por isso deixar de explicitar e discorrer sobre este ponto, tendo em conta a permanência da sua relevância para as artes narrativas.

Quero começar por separar as digressões dos ensaios, dizendo que não foram as digressões em si, comuns em tantas e tantas obras de grandes autores que me chocaram. Embora sobre estas ainda, deva dizer que pecam por verborreia e cargas metafóricas baseadas na mera interpretação pessoal da realidade, muitas vezes desprovidas de suporte em factos, estudos ou trabalhos, apresentando-se assertivamente, e por vezes mesmo algo arrogantes, como se do pedestal do seu observatório Victor Hugo se arvorasse em dono da verdade. Contudo como digo, o maior problema, em termos da obra como um todo, surge na forma de autênticos ensaios, ou seja, blocos integrais de texto com pouca ou nenhuma relevância para a narrativa.

Na introdução de muitos destes blocos o narrador, que se confunde com o autor, dá-se ao luxo de dizer na cara do leitor: espere aí que agora tenho de lhe contar aqui uma outra coisa, que para mim é também muito interessante. São dezenas de vezes em que literalmente diz isto aos leitores, chegando a criar um Livro (rótulo atribuído aos conjuntos de capítulos dentro da obra) inteiro que intitula de “Parêntesis”, para dissertar sobre mosteiros, abadias e deveres religiosos, quando ainda no Livro imediatamente anterior tinha já digressionado fartamente sobre a construção de um convento e as suas religiosidades. Noutros, como “Waterloo”, discute batalhas e estratégias de guerra; para pouco depois criar outro livro “Páginas de História” e discutir a revolução de 1830 em Paris; e mais à frente ainda dedicar todo um outro livro ao dia “5 de Junho 1832” em Paris. Pelo meio temos livros como “Paris no seu átomo” em que se apresenta um estudo das crianças abandonadas nessa cidade; outro como “Calão” em que se observa o modo como nasce o calão nas ruas de Paris; ou ainda “Patron Minette” em que se discute a formação de uma quadrilha em Paris; ou por último um inteiramente dedicado à razão e funcionamento das redes de esgotos de Paris.

O que é que estes textos fazem no meio de um livro que tem como personagem principal Jean Valjean? Ou secundárias como Fantine, Cosette, Marius, Javert, ou o Bispo de Digne? Nada, porque nenhuma destas personagens é mencionada em nenhum destes capítulos. Eles foram escritos por Victor Hugo como textos autónomos, independentes da trama, alheios ao discorrer da narração, assim como aos destinos dos personagens. São textos que demonstram o conhecimento e trabalho profuso de Victor Hugo, mas são textos que demonstram incompetência pela falta de artifício narrativo no fusionar de factos e do contar de história. É verdade que isto está longe de ser algo fácil, veja-se como o cinema tem dificuldade em o fazer, acabando por optar por diferenciar-se claramente entre filmes de ficção e filmes de documentário, ou como os videojogos educativos falham cabalmente. O chamado edutainment (entretenimento educativo) é difícil de criar, mesmo num campo mais abstrato como a literatura, por isso temos tal como no cinema a ficção e a não-ficção, mas existem excepções.

Enquanto Victor Hugo se debatia sobre a metodologia a adotar na criação do seu livro de ficção carregado de factos, Leo Tolstoi avançava e mostrava como fazê-lo. Se colocados lado a lado, “Os Miseráveis” (1862) e “Guerra e Paz” (1869), Victor Hugo falha "miseravelmente". O Pierre Bezukhov de Tolstoi viveu a batalha da Invasão Francesa da Rússia, sentiu o palpitar de uma Moscovo sitiada, e com ele levou-nos a experienciar todos esses eventos históricos por dentro. Já Jean Valjean nunca chega a saber quem foi Napoleão, nem porque raio as pessoas se envolvem em revoluções. Deste modo, apesar de ambas apresentarem fortes tramas e factos reais, os modos como o fazem são não só diferentes, como providenciam aprendizagens históricas efetivas bastante distintas. Aliás, basta olhar para a história das publicações de cada uma destas obras.

Existem muito poucas obras resumidas de “Guerra e Paz”, já de “Os Miseráveis” abundam, o nosso Plano Nacional de Leitura chega a recomendar uma dessas versões, o que nos diz que as partes históricas, os tais ensaios, normalmente extirpados destas versões, precisam de acompanhamento para chegar à maioria dos leitores. Ou seja, é uma obra que claramente aconselha o estudo em escolas, para que os professores possam ir contextualizando e trabalhando os dados históricos do livro com os alunos, não os deixando à mercê de factos complexos e em torrente.

Por outro lado, terá sido também a facilidade com o que se podem recortar esses blocos do livro, sem impacto na trama, que terá conduzido ao seu sucesso popular. Existem mesmo listas de aconselhamento sobre os capítulos que se podem evitar. É muito provável que o facto de “Guerra e Paz” ser pouco lido se deva menos à sua extensão e mais às suas digressões e relato de eventos históricos que acabam por não ser tão facilmente tolerados pelo leitor comum, mais habituado a focar-se no enredo. E talvez também por essa facilidade de extrair as partes mais ensaísticas, as adaptações de “Os Miseráveis” tenham tido tanto sucesso, com mais de meia centena realizada pelo meio audiovisual, sendo que um dos musicais adaptados permanece em cena há mais de 30 anos.

Para fechar, e socorrendo-me do musical, talvez o fruto mais expressivo do sucesso desta obra, quero referir um facto apontado pelo produtor Cameron Mackintosh, que disse numa entrevista que parte do revigorar do sucesso da adaptação “Les Mis” ao chegar ao marco dos 25 anos, se deveu ao fenómeno surgido num programa da televisão inglesa, Susan Boyle. Surgindo como revelação no concurso "Britain Got Talent", a cantar o tema do musical “I Dreamed a Dream”, encarnava pela história da sua vida, o fundamento de tudo aquilo que Victor Hugo nos quis deixar como legado. No final de "Os Miseráveis" Jean Valjean pode não ser um grande conhecedor da História que o rodeou ao longo de todas aquelas páginas, mas o leitor não poderá dizer que não percebeu o porquê de Jean Valjean ter vivido como viveu.

Susan Boyle no concurso Britain Got Talent canta "I Dreamed a Dream"

segunda-feira, agosto 14, 2017

Pensar em ditadura com Herta Muller

O Nobel atrai, naturalmente, mas o que me interessava no livro de Herta Muller, “A Terra das Ameixas Verdes” (1994), era o seu contexto, a vida sob o regime comunista da Roménia pré-Revolução. Em 1989 assisti àquilo que foi a primeira Revolução emitida em direto pelo meio de televisão, em desacordo com o título do poema de Gil Scott-Heron, “The Revolution Will Not Be Televised” (1970), ainda que não com o conteúdo da sua mensagem.

A Revolução foi televisionada.

Era adolescente, nascido um par de meses após a Revolução portuguesa (1974), tendo passado toda a minha vida a ouvir falar da Revolução que tinha permitido aos meus pais voltarem ao seu país, e libertado todo um povo. Na minha cabeça tudo se construía numa mancha de abstrações, a vida vivida na Europa e em Portugal desde então era calma, a cultura pop dos anos 1980 tomava conta dos nossos imaginários e a Revolução parecia um passado distante, em certa medida e dada a ingenuidade da infância, chegava a parecer insignificante.

Quando em 1989 estava a passar as férias escolares de Natal no Luxemburgo, por ocasião de um regresso temporário dos meus pais ao país para onde tinham fugido da nossa ditadura nos anos 1960, fui surpreendido pelos eventos que eclodiam em Timisoara. No mês anterior, o Muro de Berlim tinha caído, e com ele o comunismo europeu tinha chegado ao fim, mas o líder romeno, Ceausescu então com 71 anos, não conseguindo lidar com a ideia de fim, recusou a demissão, mantendo-se no pedestal ilusório que tinha criado ao longo de 24 anos de ditadura.

A bandeira romena com o rasgo circular em que estava o brasão comunista.

Foram duas semanas em que de quase mais nada se falou, ou viveu, os romenos éramos nós, passados 15 anos. A televisão, à custa do regime, usava todas as estratégias narrativas para nos manter colados ao ecrã — mistério, suspense, vilões, heróis, maldade, ganância e muitos inocentes — até a labirintos subterrâneos e passagens secretas tivemos direito. É impossível esquecer as bandeiras romenas tricolores com rasgos circulares ao centro, marcando a purga do brasão comunista da bandeira nacional. Mas para quem era ainda apenas um adolescente, o mais marcante estaria ainda para vir, chegando no próprio dia de Natal com as imagens do julgamento do casal Ceausescu, tendo as imagens do seu fuzilamento sido apenas reveladas mais tarde. Era o fim, mas ao contrário, porque era o nascimento de um novo país. Por muito que tivesse sido ensinado a olhar a morte como algo profundamente contra-natura, não pude deixar de a ver como a catarse última daquela Revolução, por representar a permissão para todo um país poder finalmente acreditar que podia falar livremente.

Imagem do último discurso de Ceausescu, em direto na televisão nacional romena, marcada pela expressão de incompreensão originada pela multidão que ousa, pela primeira vez em 24 anos, desobedecer e assobiar o seu líder. O seu discurso não duraria mais de 2 minutos, e o impacto das imagens transmitidas em direto para todo o país colocariam em marcha a Revolução.

A Roménia, tal como Portugal, tinha uma polícia secreta, a nossa era a PIDE, a deles era a Securitate. Salazar era nacionalista, de inspiração fascista, Ceaucescu era comunista, na aparência separados por polos políticos opostos mas em essência juntos, ambos ditadores. As suas polícias serviam a manutenção das suas ditaduras, através da constante vigilância que se socorria de legiões de bufos, impondo-se pelo desrespeito de quaisquer direitos que fossem contrários aos supostos interesses dos estados. A tortura era a punição mais comum, mas servia essencialmente a produção de medo, sustentando os regimes no terror.

E é exatamente sobre este último ponto que Herta Mueller nos fala em “A Terra das Ameixas Verdes”, principalmente a opressão e repressão operadas pelo regime de Ceausescu. Mas fá-lo de um modo completamente particular, não seguindo princípios romanescos melodramáticos, esquivando-se às formulas de lágrima fácil. O trabalho de Mueller assenta numa espécie de escalpelização dos efeitos psicológicos do regime, mas acima de tudo numa tentativa formalista de dar a experienciar esses efeitos a quem lê.


Para o efeito, Mueller produziu um texto completamente único, em que as pequenas histórias vão sendo apresentadas como que aos soluços, com pausas, intermitências, recuos e avanços no tempo, cortes abruptos da linearidade discursiva, tudo polvilhado por uma camada de elementos simbólicos muitas vezes indecifráveis. O resultado é um texto difícil, mas acima de tudo uma incapacidade de descortinar sentidos completos do que se vai lendo, que acabam por se assemelhar ao que vai sentindo cada um dos personagens que habitam sob aquele regime. Um desespero por querer compreender, dar sentido, explicar, atribuir uma lógica, ‘porque fazem o que fazem?’. Este sentimento é ainda mais enfatizado pela exploração da escrita de cartas entre os personagens, que por terem de passar os crivos da polícia, não podiam nunca ser explícitas, e que de algum modo a obra pela sua estética nos vai fazendo sentir para compreender a psicologia de quem as escrevia.

No fim deste livro podemos sentir de perto os efeitos de um estado policial, a autora conseguiu criar através da arte escrita um pequeno acesso ao horror de quem vive soterrado mentalmente por uma Thinkpol, a polícia do pensamento de Orwell (1947). Choca e dói porque o que aqui se relata não é ficção, não surge da imaginação de quem escreveu, mas da experiência de quem viveu. Pensar que todo um povo pode a tal ser submetido, pensar que 22 milhões de romenos, 9 milhões de portugueses, mas também muitos milhares de milhões ao longo da história das várias civilizações tiveram de por aqui passar, dói. Como diz Muller, já perto do final, “transfinito é uma janela que não desaparece quando alguém caiu dela”.

sábado, agosto 12, 2017

All That Fall (1956)

Cheguei até “All That Fall” através de Elena Ferrante, que se socorre desta peça no segundo volume da saga “A Amiga Genial” para lançar uma discussão existencial entre Lenu, Lila e Nino. Ferrante fixa a conversa em redor de um dos múltiplos pontos discutidos na peça, e apesar de ser algo fugaz é provavelmente uma das partes mais relevantes da peça, já que se liga diretamente ao modo como Beckett desejava que a peça fosse experienciada.


“All That Fall” foi criada como audio drama, uma peça dramática para rádio. Vários foram os criadores que procuraram Beckett para realizar adaptações para palco, entre os quais Ingmar Bergman e Laurence Olivier, mas sempre, ou quase sempre, recusadas por Beckett. Dizia ele:
“Even the reduced visual dimension it will receive from the simplest and most static of readings (..) will be destructive of whatever quality it may have and which depends on the whole thing's coming out of the dark." (fonte)
Ou seja, “All That Fall” baseia a criação e comunicação da experiência na forma do medium. Um dos personagens é cego, daí que toda a peça seja construída para o sentido da audição por meio dos diálogos, música e efeitos sonoros. Cabe ao recetor recriar mentalmente os cenários, espaços e cores. E aqui chego ao destaque realizado por Ferrante, e que me parece ser aquele que verdadeiramente justifica a obstinação de Beckett quanto à não adaptação para palco.
“Mr. Rooney: (..) No, I cannot be said to be well. But I am no worse. Indeed, I am better than I was. The loss of my sight was a great fillip. If I could go deaf and dumb I think I might pant on to be a hundred”, excerto de “All that Fall” de Beckett
“Dan Rooney, she said, is blind but he’s not bitter about it, because he believes that life is better without sight, and in fact he wonders whether, if one became deaf and mute, life would not be still more life, life without anything but life.” excerto de “The Story of a New Name” de Elena Ferrante
O velho e eterno dilema dos sentidos, tão discutido por Sócrates e Platão, sobre o modo como estes deturpam a realidade que nos chega, impossibilitando-nos de aceder à pura verdade. A realidade não é possível através do modo sensível, dizia Platão, tendo por isso defendido a erradicação das artes da República. A elaboração de Ferrante é distinta, já que procura um enaltecer da desistência existencialista da realidade perceptiva, ou seja, uma fuga às dores e obstáculos que a vida nos vai colocando na frente. Já Beckett pelo contrário está mais preocupado em encontrar distintas possibilidades de aceder ao belo, servindo este diálogo num extremar dessa busca.

A peça tem sido bastante trabalhada em ambiente escolar dada a sua imensa expressividade, nomeadamente simbólica. Deixo aqui uma ligação que vale a pena explorar para quem pretenda trabalhar a peça nesses ambientes. A peça pode ser ouvida no YouTube, embora o som não esteja com a melhor qualidade, e por isso pode ser também lida em português online.

quarta-feira, agosto 09, 2017

Uma Abelha Na Chuva (1953)

Vi o filme na adolescência, a adaptação de 1971 de Fernando Lopes , e não gostei. Ficou-me marcado o estilo nada natural, o ritmo lento e entrecortado, combinado com um título que sempre me pareceu ingénuo, pelo simbólico e fragilidade do insecto, incapaz de gerar interesse. Por isso tive sempre relutância em pegar no texto original de Carlos de Oliveira. Admito que foi um erro, o texto é superior, ou talvez o facto de hoje ter mais do dobro da idade me faça sentir tudo tão diferentemente.


Carlos de Oliveira nasceu no Brasil, mas foi na região portuguesa da Gândara que cresceu e de onde retirou a geografia que serve de cenário a “Uma Abelha Na Chuva”. Esta região situada no litoral — entre o Mondego e a Ria de Aveiro — conheço-a muito bem por também aí ter vivido uma parte da minha infância, mas por isso mesmo posso dizer que não apresenta particularidade — na generalidade plana e arenosa, dotada de pequenas lagoas e muitos pinhais. Aqui nada parece acontecer nunca, mas de certo modo é dessa espécie de marasmo brumoso que Oliveira se socorre para encorpar o universo da sua história, e daí que refletindo, hoje, sobre a adaptação de Fernando Lopes me pareça afinal muito condigna, assumindo eu a minha incapacidade para enquanto jovem a poder compreender.

Os pinhais da Gândara

A história dá conta de um conjunto de personagens que ocupam diferentes estratos sociais do Portugal dos anos 1950, das suas relações, ambições e decadências. Mas os personagens, tal como a geografia, parecem não ter muito para dizer, para se importar, ou agir, como se se deixassem levar pelas forças que os trespassam, sejam as leis, regras sociais, ou condições geográficas e climatéricas. Inevitável  a colagem a “Satantango” (1994) de Bela Tarr, o seu mundo mecânico sem força interior, mágico nebuloso, de certo modo castrado pelas condições políticas de uma Hungria comunista, o que não deixa de apresentar semelhanças com um Portugal sob o jugo ditatorial.

"Satantango" (1994) de Bela Tarr 

A crítica e análise do texto, tão prolífica no mundo académico a ponto de tornar o texto obrigatório na escola nacional, centra-se muito sobre a componente ativista do neo-realismo português, dando grande destaque para o simbólico que percorre o texto, desde logo o título e as classes sociais, no modo como destaca a falta de organicidade da sociedade de então. Se me interessou, o que verdadeiramente me espantou, o que me agarrou, e deixou fixado em Carlos de Oliveira foi a estilística. Oliveira era um mestre da palavra, leiam-se os seguintes excertos:
“Arrastava-se a viagem. A morrinha parara mas havia mais frio. Traçou o xaile de lã sobre a garganta, sempre aquilo, colhia-a um golpe de humidade e a voz, rouca de natureza, tornava-se inaudível. Só o calor lhe permitiria falar outra vez desafogadamente. Passou de memória a sala do Montouro, com pinhas acesas e desfeitas no tijolo do lar, as conversas vagarosas, o grande candeeiro de petróleo com as senhoras debruçadas sobre as malhas, e ela que em geral se azedava no pasmo daquelas noites desejava-o agora de todo o coração, quem me dera estendida na cadeira de verga, ao brando crepitar do lume.”
“Sentou-se num desses marcos de pedra tosca que dividem as propriedades; tentava serenar, sair da sua confusão; e olhando aqueles sítios conhecidos agasalhou-se na memória das manhãs infantis passadas por ali: as galinhas mansas e ensonadas a desenterrar as minhocas da humidade do pátio; a voz pastosa de João Dias, o velho caseiro, a gritar ao gado; o cavalo novo, comprado em S. Caetano, empinava-se a meio do terreiro e relinchava atirando pelas narinas o fumo da respiração selvagem; as aves madrugavam nas ramagens da nogueira imensa; ele, empoleirado na alpendrada de madeira e zinco, dava conta do catarro do velho Silvestre, dos seus primeiros passos no quarto, estendia a vista pelos currais, pelas culturas encharcadas de orvalho; o sino espargia sobre a gândara o som antigo do amanhecer e nas casas nascia o lume que a dejua;”
“Levou o resto da manhã às voltas com a ideia e tanto lhe mexeu que a deixou a sangrar: o sangue farto das feridas recentes. Espantava o sono com goladas duma garrafa de aguardente que escondia no cofre. Pouco a pouco, ressuscitava nele o homem implacável que a intensa amargura dalguns dias arrancava ao desespero a que descia, como se o vento desse na poeira da sua consciência desmoronada e as pedras limpas se reerguessem umas sobre as outras. Nesses acessos tornava-se rígido, cruel.”
Muito expressivo e ao mesmo tempo, impressivo. O texto que parece simples, carrega consigo uma quantidade de imagens a que só acedemos na plenitude após várias releituras. Como se as palavras dessem conta de uma realidade imediatamente perceptível mas formassem camadas de sentido que se vão construindo na soma de palavras em frases e por sua vez na soma de sentidos. Para isto contribui o ritmo e o encadeamento das frases que contribuem para uma prosa particularmente poética.

Ingrid Bergman em "Stromboli" (1950) de Roberto Rossellini

Se no final da leitura me dava conta da imensa beleza do texto por contraste à pequenez da história contada, à medida que o tempo pós-leitura foi passando fui sentindo cada vez mais o mundo de Oliveira, e percebendo melhor o que ele pretendia. Oliveira não queria contar uma história, queria criar uma experiência, a sua Gândara é o “Stromboli” (1950) de Rosselini, e se ambas estas figuras foram rotuladas de neo-realistas, eu não consigo deixar de as sentir como impressionistas.

segunda-feira, agosto 07, 2017

A rejeição da diferença, com Amos Oz

Ler um livro, “Uma História de Amor e Trevas” (2004), em que o evento principal relata a criação do estado de Israel em 1948, estando de férias na região de Andaluzia, Espanha, pode parecer não ter qualquer relação, no entanto os dois elementos acabaram por servir a intensificação em mim da compreensão do sentimento humano de "rejeição da diferença".


A designação da região espanhola provém do termo árabe Al-Andalus atribuído em 711 aquando da entrada dos muçulmanos na península. A região conheceu uma prosperidade até aí inexistente, já que anteriormente tinha conhecido apenas povos pouco organizados. Os muçulmanos souberam viver aqui e construir um império em conjunto com todas as outras religiões, nomeadamente os judeus que tinham vindo para a Península Ibérica, a partir do ano 70 d.c. Em 1492 os Reis Católicos terminariam o domínio muçulmano e dariam início à conversão forçada de muçulmanos, assim como dos judeus. Esta conversão consistia num verdadeiramente policiamento de costumes e práticas diárias, e a sua não obediência implicava multas, prisão ou tortura. Em Portugal aconteceria o mesmo.

Concluindo pela impossibilidade da conversão iniciou-se a expulsão, muitos muçulmanos foram enviados para o norte de África, tendo uma parte dos judeus partido para o norte da Europa. A cultura criada pelos muçulmanos em conjunto com todos os povos aí residentes, durante 8 séculos, foi de tal modo expressiva que ainda hoje, passados 5 séculos sobre a sua expulsão, não apenas está presente, como é o principal motor da sua maior indústria: o turismo.

Dito isto, não só podemos estabelecer uma ligação entre Israel e a Andaluzia, como temos de o fazer. Ler sobre o surgimento deste estado em pleno século XX obriga-nos a uma reflexão sobre os últimos 2000 anos da história da Europa. Foi um imperador de Roma, Adriano, que no ano 63 d.c. destruiu a Judeia e renomeou o território como Palestina. Daí que ter em 1948 a instituição que congrega representantes de todo o planeta, a ONU, a votar democraticamente e positivamente o reconhecimento do Estado de Israel é algo quase tão importante, historicamente, como o primeiro passo do homem na Lua.


Em “Uma História de Amor e Trevas” Amos Oz fala da sua herança genética, apresentando quatro gerações que geograficamente atravessam os territórios da Rússia a Israel. Enquanto lia sobre os seus antepassados residentes no norte europeu, nunca consegui deixar de pensar que muitos desses carregariam consigo herança portuguesa. Aliás, fiquei a saber que um dos principais códigos judeus, “Shulchan Aruch”, foi criado por José Caro, um judeu português expulso em 1497. Mas fiquei saber muito mais, que por exemplo a subida ao poder de Hitler em 1933 foi bem recebida pela comunidade judaica espalhada por essa Europa do norte, pela simples razão de que era já muito mal tratada por todos, não podendo sequer aceder às universidades de muitos desses países em plena década de 1920. Hitler vinha impor a ordem, acabar com os abusos.

Depois percebi também algo que sempre me tinha feito alguma confusão em todo o historiar da destruição dos judeus pelas forças nazis: porque os judeus nunca retaliaram! A razão, deduzida pelo que fui lendo e agora para mim claramente plasmada nas palavras de Oz, teve que ver com uma educação de sobrevivência desenvolvida pelo próprio povo judeu ao longo de séculos de maus-tratos e que assentou na humildade. Os judeus primaram sempre por uma educação forte baseada no crescimento pelo conhecimento, mas sem permissão de exibição ou vaidade, mantendo perfis pouco visíveis, para não levantar ondas. Se por um lado Nietzsche teve razão ao dizer que aqueles que se fazem de humildes tendem a continuar a ser pisados, aliás muito provavelmente aqui vieram beber os ideólogos de Hitler, a verdade é que os Judeus nunca foram esmagados. Os judeus, por via da sua humildade quase foram erradicados por Hitler, mas olhando ao outro lado do prisma, não deixaram de ocupar lugares da maior relevância científica, artística e cultural por todos os países por onde passaram. Se dúvidas houvesse, deixo apenas alguns nomes: Einstein, Freud, Marx, Proust, Pessoa, Kafka, Spinoza, Spielberg, Stan Lee, e já agora Jesus de Nazaré.

O que verificamos, século após século, milénio após milénio, é que o facto de sermos animais gregários não é condição suficiente para vivermos em comunidade. Que esta condição de pertença a um grupo cria por inerência o seu contrário, a não pertença a outro grupo. Se sou dos vermelhos não sou dos verdes. Conclusão, ao mínimo sinal de crise ou conflito, aproximo-me dos vermelhos e distancio-me dos verdes, e o sentimento de gregariedade, sendo profundamente reptiliano, faz emergir em mim o melhor, proteger os meus a qualquer custo, e o pior, tudo para os meus e nada para os outros. Daqui emerge o racismo, a xenofobia, e todas as imensas formas de discriminação.

Nada disto que digo é novo, porque está conosco desde sempre, vem inscrito em nós. Por isso criámos sistemas de justiça, para evitar a justiça conduzida pelo sentimento. Por isso nos anos mais recentes separámos a justiça da política e a política da religião, para impedir o controlo de uns pelos outros baseados em desvios da racionalidade por via do sentimento, e assim obrigar à igualdade de tratamento. É verdade que se perdem dimensões humanas, mas o que se perde é bem menor do que aquilo que se ganha, e basta ver aquilo que acontece nos territórios em que estas separações ainda não aconteceram.

Ainda que por outras palavras, “Uma História de Amor e Trevas” fala de tudo isto e coloca no centro um paradoxo, aparentemente irresolúvel. Amos Oz escreveu um romance autobiográfico no qual procura: dar conta do nascimento de Israel ao fim de 2000 anos; enquanto dá conta da desistência da sua mãe da vida. Mas nada, em termos simbólicos pode ser irresolúvel, a tudo podemos significar, e cada um de nós lerá aqui o que melhor entender. Para mim, Oz procura dar conta da essência do que somos, e que não somos feitos nem de diferenças nem de estados, mas somos antes sujeitos que buscam encontrar-se, e isso só acontece a partir de dentro de cada um de nós, a partir dessa vontade de nos conhecermos a nós mesmos. E assim posso responder a uma outra questão com que me tenho interrogado desde há muito: como conseguiram os judeus sobreviver a mais de 5 mil anos de perseguições, sem nunca perderem o norte dos seus ideais e valores.


Para fechar, e sobre a prosa de Amos Oz, tenho de dizer que a escrita é boa mas não entrou para o meu rol de preferidas. Que a estrutura definida para relatar os eventos não sendo má, não é suficientemente engajadora, principalmente durante a primeira metade do livro. O livro só se torna compulsivo no último terço, quando já temos o grande cenário todo elaborado na nossa cabeça. Por comparação, o relatar de Mann das gerações de Buddenbrook, também bastante autobiográficas, é muito mais conseguida, também por ser suportada por uma escrita sumptuosa, apesar das gerações de famílias de Mann não terem um ínfimo da relevância histórica das gerações de famílias de Oz.

La casa de Bernarda Alba (1936)

Federico García Lorca foi assassinado no início da guerra civil espanhola, em 1936, que viria a colocar no poder o ditador Franco. Fuzilado por razões estritamente políticas mas insuficientemente justificáveis — era maçon, socialista e homossexual —  o seu corpo nunca seria encontrado, criando toda uma aura de mistério que decorre até hoje. Lorca tinha apenas 38 anos mas fazia já parte da galeria de artistas espanhóis de reconhecido valor do início do século XX, nomeadamente pela sua poesia, daí que a sua morte poucos dias apenas após terminada a escrita de “La casa de Bernarda Alba” tenha servido para ampliar o seu reconhecimento e o deste texto em particular.


“La casa de Bernarda Alba” não fala de Lorca, nem lhe serviu de manifesto político, ainda que adquira um tom panfletário contra o conservadorismo da Espanha rural e profunda, pondo a nu a posição da mulher na sociedade, nomeadamente o cinto de regras que a condicionava e domesticava, e que colocava as aparências acima do sentimento. A história contada é bastante simples e curta, e em parte adaptada de um caso real conhecido de Lorca: uma mãe viúva controla cinco filhas em idades casadouras, impondo o celibato e a hierarquia familiar com mão de ferro. É uma história que traz pouco de novo à paisagem narrativa do século XXI, onde histórias destas pululam por todo o lado. No entanto, se lida dentro do contexto histórico próprio ganha todo um conjunto de outras dimensões que dão força ao texto, ainda assim se o texto merece continuar a ser lido, é menos pela sua história e mais pelo seu estilo.

A primeira impressão do texto surge ao fim de poucas páginas e é bastante forte, com as personagens a edificarem-se do papel e a criarem a sensação de que quase lhes conseguimos tocar. Isto acontece pela força dos diálogos e do ritmo, que são absolutamente perfeitos. À medida que vamos lendo, vamos compreendendo e sentindo as diferentes personagens pelo simples modo como falam, por outro lado o ritmo imprimido pela troca de falas, muito curtas, entre as personagens é de tal ordem que nos transporta para o interior da cena, fazendo esquecer que de uma cena se trata. Lorca parece não dar conta do espaço nem do visual, contudo basta-lhe o que cada personagem diz para nos fazer ver os lugares, os costumes, os gestos e os trejeitos. É drama puro, é a capacidade de encenar realidade e dá-la a sentir encarnando-a nos agentes de cena.
"Mujer 1: Los pobres sienten también sus penas.
Bernarda: Pero las olvidan delante de un plato de garbanzos.
Muchacha 1: (Con timidez) Comer es necesario para vivir.
Bernarda: A tu edad no se habla delante de las personas mayores.
Mujer 1: Niña, cállate.
Bernarda: No he dejado que nadie me dé lecciones. Sentarse. (Se sientan. Pausa)
(Fuerte) Magdalena, no llores. Si quieres llorar te metes debajo de la cama. ¿Me has
oído?"
Todo o texto é uma tensão contínua e progressiva, seguindo as melhores lógicas da tragédia grega na busca por uma catarse plena, com a particularidade estilística de se conseguir pela vivacidade, fluidez e naturalismo dos diálogos. A crítica fala de uma "poetización del lenguaje cotidiano”, e isso pode ver-se no modo como sentimos emergir do texto o intelectual e o popular num conflito constante. É impossível ficar indiferente à sua leitura que recomendo em espanhol para poder sentir o drama mais de perto, ainda que claramente eu precise de o experimentar um dia num palco.

segunda-feira, julho 24, 2017

A Noiva do Tradutor (2015)

A escrita é bastante particular, elaborada mas acessível, dotada de uma pontuação intensiva, com ênfase na vírgula, que pauta o ritmo das frases e conduz o sentir da experiência de leitura, aproximando-a do tempo da ação. São 48 horas em 100 páginas, durante as quais pouco acontece ainda que pareça muito pela velocidade imprimida no modo como o pensar do protagonista vai brotando dessas páginas.


Não falo de género, não é um thriller, mas é antes o estilo adotado pelo autor que lhe permite desta forma criar um acesso ao interior do personagem, levando-nos no sequenciamento do idear, mas numa forma distinta do tradicional “fluxo de consciência”, no sentido em que as palavras não parecem brotar diretamente do não-consciente, do eu automático, mas antes do limiar do consciente, uma espécie de sinais pré-verbais.

De algum modo, este Tradutor atira-nos para os interiores de Gregor Samsa (Kafka) ou Rodion Raskólnikov (Dostoiévski), até porque a estes não é também alheio a visão mais negra do mundo em que vivem. O nosso Tradutor fica sem a Noiva e na busca por a ter de volta e tudo fazer para lhe agradar, entra por uma espécie de universo fantástico adentro, uma espécie de realidade alternativa de um passado europeu de há 100 anos, no qual o real se exagera e a sensibilidade se amplia, permitindo ao autor criar momentos de grande comicidade e simultaneamente questionamento existencialista.
"A velha aproxima-se, eu debruço-me sobre o corrimão, estou curvado no segundo degrau, molho o tapete, todo o meu corpo escorre água, tirito de frio, não consigo evitá-lo, é mais forte do que eu, terei de consultar um especialista sobre estes fenómenos, terá de existir uma explicação, a gorda viúva estica o pescoço, aproximo o meu rosto, sinto-lhe o hálito dos pesados assados de domingo, ainda não os digeriu, a noite não foi suficiente, ela aguarda ansiosamente, eu grito-lhe ao ouvido."
Gostei muito de ler o autor, por tudo o que disse acima, mas também e apesar de não ser grande apreciador de comédia literária, pelo modo subtil, em que tudo se vai apresentando tão natural, mas simultaneamente ríspido, com os modos cruéis com que se vão desqualificando os vários personagens, criando assim uma teia negra mas cómica que tece o mundo do livro. Na tradição deste tipo de obras não é expectável fechamentos significativos, interessa mais o processo, mas neste caso posso dizer que me surpreendeu, a cena final preencheu-me, insuflou-me o sentir.

sábado, julho 22, 2017

A Curva do Rio (1979)

É verdade que o tema é a descolonização, o antes e o pós, impactos e efeitos, mas é mais do que isso, é um questionamento sobre aquilo que nos motiva a fixar objetivos, a acreditar em destinos, a procurar mais e melhor. É visto a partir da perspectiva africana, ainda que por um indiano que ali nasceu, servindo o romance para dar conta do seu coming-of-age.


A escrita de Naipaul é boa mas não surpreende, pelo menos na tradução, já o tom imposto ao discurso esse sim é bastante particular, muito conseguido e coerente ao longo de todo o romance. Não é fácil definir esse tom, diria que é uma espécie de melancolia ausente, no sentido em que as emoções apontam para tristeza e desaire, mas ao mesmo tempo abnegação, permitindo que a atmosfera do livro se eleve, deixe respirar, sem condicionar o sentimento, e sem nunca permitir o definhamento completo da esperança. Como que sabendo que não valendo a pena, vai-se ainda assim fazendo o esforço, ainda que reduzido esse esforço, mas fazendo-o, como que para se manter à tona a respirar na espera por melhores dias. Tenho a sensação que se não tivesse passado por África já algumas vezes, teria dificuldade em conseguir compreender este tom, a mesma dificuldade que senti quando pela primeira vez tentei ver o filme "Terra Sonâmbula", adaptado do livro homónimo de Mia Couto, e que depois dessa experiência vi com outros olhos.

Naipaul consegue recriar a atmosfera africana no fio das páginas, o languido fundido com a tristeza, mesclada com a vontade de continuar a lutar ainda que devagar. É verdade que Naipaul não mede as palavras, é muito direto, roça o racismo, e há mesmo quem não lhe perdoe, mas nada do que é dito pode ser retirado de contexto e colocado na boca do autor. Escrever de modo politicamente correto seria bom para os críticos europeus, mas nunca conseguiria chegar ao âmago, e dar-nos a sentir o que verdadeiramente se sente no interior daquele continente. Aliás o que mais me impressionou na leitura foi exatamente ler a África pelos olhos de um não europeu e de um não-africano, existe uma espécie de imparcialidade que se cola aos personagens de Naipaul que nos permitem ver o que até aqui não tínhamos visto noutras obras com a África em pano de fundo.
“Quando se deu a independência, o povo da nossa região enlouqueceu de raiva e de medo – toda a raiva acumulada durante o período colonial, todos os medos tribais que entretanto tinham estado adormecidos. A gente da nossa região tinha sido muito maltratada, e não apenas pelos europeus e árabes, mas também por outros africanos; e quando veio a independência, recusaram-se a obedecer ao novo Governo instalado na capital."

Houve um momento em que quase fechei o livro, quando o protagonista desata a bater na amante, algo que se cola a algumas histórias que entretanto circularam a propósito do próprio Naipaul. A julgar pela descrição realizada, acredito que o autor o tenha feito nesse seu passado, mas não podemos, mais uma vez, descontextualizar as ações. Não posso de forma alguma defender o autor, mas não posso esquecer o que é viver numa sociedade que aprova e incentiva esses comportamentos.

Inevitavelmente o rio de Naipaul faz-nos recordar as trevas de Conrad, ainda que num tom distinto como já referi acima, e por isso difícil de aproximar. Naipaul sendo melancólico nunca permite a total negrura, não tem soluções, mas nunca fecha a porta, acredita claramente no ciclo da vida, sente-se ao longo de todo o livro, pela boca dos seus personagens, uma crença no princípio budista de que “Tudo é Impermanente!”.

quinta-feira, julho 20, 2017

Da narrativa em Tetris

O videojogo "Tetris" (1984) é um dos jogos mais relevantes do meio, não só pelo seu apelo enquanto jogo, mas por tudo aquilo que nos obriga a questionar sobre o objeto dos videojogos. Devem os videojogos apelar às nossas competências de raciocínio lógico tal como acontecia nos chamados jogos tradicionais, ou devem os videojogos abraçar outras áreas, nomeadamente trabalhar competências narrativas e empáticas?



Do meu ponto de vista, o Tetris dá uma resposta cabal à primeira parte, estimula e recompensa muito bem o investimento em raciocínio lógico em memória visual e atenção, e fá-lo sem nunca se preocupar com qualquer camada narrativa. Existem colegas que para defender a necessidade narrativa dos videojogos, abordam o videojogo pelo lado da experiência, e como esta acaba por estimular nos jogadores narrativização dos processos realizados em jogo. Não concordo com esta abordagem, pela simples razão de que o modo como fazemos sentido do mundo é pela narrativa, tudo é narrativizado na nossa consciência, mas isso não pode ser utilizado para atribuir características aos artefactos que eles não possuem. Neste caso o Tetris é um dos melhores exemplos dos videojogos, diria quase exemplar, de como um videojogo pode representar tudo o que meio é, sem qualquer recurso à narrativa. Com isto não estou, de forma alguma, a defender que os videojogos não precisam, nem são feitos de narrativa. O que interessa aqui é compreendermos o espectro do meio dos videojogos, compreender que um videojogo se pode situar num polo de um eixo que vai do puro Jogo, aqui como exemplo o "Tetris", até à outra extremidade desse eixo, num polo feito só de Narrativa, com o exemplo "Heavy Rain" (2010).

Para demonstrar isto mesmo, e esta foi a razão porque escrevi este post, deixo aqui um pequeno filme de animação que usa o Tetris como pano de fundo, e que este sim narrativiza o mundo de "Tetris". Do mundo de "Tetris" emergem personagens, emergem cenários, emergem conflitos, e temos uma história para contar. Claro que se trago aqui o filme não é apenas por narrativizar uma obra conhecida dos videojogos, muitos outros filmes existem, o interesse deste reside no facto de ter conseguido trazer para o centro do conflito narrativo a essência da jogabilidade de "Tetris".

“Ménage à Tetris” (2017) de Emile Rademeyer

O filme foi criado pela empresa Vandal para a agência BMF com o objetivo de ser apresentado no TEDxSYDNEY 2017.

quinta-feira, julho 13, 2017

“Here”, uma obra-prima

Referência absoluta da arte de novela gráfica. Um livro que quebra não só com todas as convenções do meio, como com todas as convenções narrativas, e por isso naturalmente não consegue o impacto das grandes histórias já contadas por este meio, mas consegue a atenção total daqueles que se interessam por compreender o potencial expressivo do mesmo, particularmente críticos e criadores.

Não consigo deixar de evocar Mark Rothko sempre que me foco na icónica capa de "Here". 

O modelo de contar histórias apresentado por McGuire neste livro começou há 25 anos, quando em 1989 publicou na revista RAW, dirigida por Art Spiegelman e Françoise Mouly, um pequeno experimento de 6 páginas a preto-e-branco no qual se via, ao longo de 36 quadros, sempre um mesmo quarto atravessado pelo tempo, em milhares de anos.



Esta mesma técnica é aqui explorada ao longo de 300 páginas. “Here” encerra o leitor nas três dimensões espaciais, permitindo apenas a 4ª dimensão, do tempo, variar, e assim conduzir o leitor ao longo de uma história que encerra milhões e milhões de anos, tanto em direção ao passado, como ao futuro. O efeito é vertiginoso, se ganhamos uma forte noção da passagem do tempo, do seu impacto no ser humano, nas suas memórias e recordações, ganhamos ainda mais noção da sua relatividade, da nossa efemeridade.

Estando o espaço situado numa pradaria americana, e sendo esta atravessada por centenas de datas, que vão sendo apresentadas quase exclusivamente por imagens, podemos dizer que existe uma componente minimalista que puxa pela interpretação do leitor, instigando-o a dar corpo histórico ao que lhe vai passando pelos olhos, alimentando assim o imaginário narrativo em múltiplas camadas de sentido, nomeadamente permeando tudo com o sabor de diferente épocas facilmente reconhecíveis, tais como: colonialismo anos 1600-1700, romantismo anos 1800, ‘american way of life’ 1940-1950, presente anos 2010, passado pré-histórico 500,000 AC, futuro 2200. McGuire explica que a ideia lhe adveio a partir da morte da sua irmã e pais:
"You see things differently after going through that experience—the idea of impermanence is made more real, and everything seems fragile. The family home had to be sold. Just emptying it took a while. My parents lived there for fifty years, and the house was packed. My mom hated throwing anything away. All the clothes, the photos, the letters and things that had meaning to them. The only thing I took were boxes of photos and some films my dad shot. I think it helped with the grieving process, looking at all that stuff." Em entrevista para a Paris Review 2015
A particularidade ou brilhantismo desta técnica resume-se no facto de ser exclusiva do meio da banda desenhada, já que ao se socorrer da técnica de quadros dentro de quadros para contar a história, ou seja, uma sequencialidade gráfica temporal visual, une e funde o meio, a forma e a história. Em parte, ainda que com objetivos totalmente distintos, fez-me recordar “Zoom” (1995) de Istvan Banyai. Mas nada melhor do que deixar o próprio criador explicar o que torna esta abordagem única:
"The way simultaneousness is presented feels unique to the medium. If you were writing this story out as text, it would be a long string of events and descriptions connected by the word meanwhile. With film, you can use a split screen to show two different events, but if you add more than two it becomes increasingly difficult to keep track of what’s happening without missing something. With comics, that frozen image is easier to take in. The reader can move around within it. 
And that simultaneousness actually feels close to how we think. If you stop and try to examine your thoughts, it’s always a jumble of memories and projections. We are all zooming around in time in our heads. We’re rarely in the present—we’re more often anticipating events, or thinking back to a memory of yesterday or last week or our childhoods, and then suddenly jumping ahead again. 
In the book, the room is presented as a full double-page spread. The corner of the room is in the gutter of the book, so the opened book echoes the architecture of the space and puts the reader into the room. Each spread is marked with a date in the upper left corner. You time travel as you flip pages. Smaller panels with dates show other moments happening in the space at different times. The book may push the traditional formal aspects of the comics medium, but I think people are very used to reading multiple windows on their computers—it’s all clearly presented and understandable. " 
Em entrevista para a Paris Review 2015

Existe uma versão digital interativa, fruto de uma palestra dada por McGuire, na qual estava presente Stephen Betts que se apaixonou pela ideia, e dedicou dois anos ao seu desenvolvimento. Não a pude ainda experimentar, mas a julgar pelas palavras de McGuire, é uma experiência interessante, contudo distinta, já que a abordagem aqui apresentada foi especificamente pensada em virtude de quadros estáticos, sem movimento, som ou interatividade.

domingo, julho 09, 2017

Distopias da cultura de videojogos

Filipe Hodas é um artista 3d da República Checa. Com apenas 24 anos e 2 anos de prática diária de Cinema 4D conseguiu ver o seu trabalho reconhecido por vários sites de design gráfico (Design Boom, Hi-frutose, DYT), tendo a sua mais recente série de trabalhos, “Pop Culture Dystopia”, sido partilhada por milhares de fãs no Facebook e Instagram.


Esta série que Hodas delimita como Cultura Pop é constituída por vários trabalhos gerais, existindo uma clara tendência para a cultura de videojogos que escolho aqui dar conta. A série apresenta personagens e objetos dos videojogos re-imaginados em universos alternativos com claros sinais de decadência. A beleza da decadência material é um tema amplamente explorado nos últimos anos, tanto no campo fotográfico, como em filmes de animação 3d ou até de imagem real. Existe algo na visualização dos efeitos da passagem do tempo que nos fascina, seja a possibilidade de ver o tempo concretizado materialmente, seja a quantidade de sentidos que se conseguem extrair dos materiais pela especulação sobre as interações atravessadas e choques culturais, ou ainda o simples deleite com o detalhe visual que surge pelo acrescento de camadas materiais aos objetos originais.

Apesar do tema, Hodas não está verdadeiramente preocupado com a decadência ou crítica cultural, o seu foco, e no fundo a razão porque começou a produzir estes trabalhos, tem mais que ver com o melhorar das suas competências 3d. Neste caso o objetivo são os materiais, as texturas que servem para cobrir as suas esculturas 3d, e mais em concreto a rentabilização da ferramenta Substance Painter para a criação dessas. Daí que nada como um projeto assente no tema do apocalipse em que seja necessário apresentar transformações da realidade visível, nomeadamente em termos de degradação e deterioração, para dar asas à criação de texturas de enorme detalhe e significância.






A lista de ferramentas utilizadas para o desenvolvimento destes trabalhos apresenta, além do Cinema 4d e do Substance Painter: Octane Render, Zbrush, Substance Designer, World Machine e Adobe Photoshop.

A Conspiração Contra a América (2004)

Uma certa desilusão, ainda que não totalmente surpreso. Depois da desilusão de “The Man in the High Castle” (1962) de Philip K. Dick, já não vinha expectante, ou melhor não vinha com gula. Não consigo explicar porque sempre me fascinou esta ideia de História alternativa, mais ainda do imaginar: “e se a Alemanha não tivesse perdido a 2ª Grande Guerra?’. Talvez por ser algo que ninguém quer ousar imaginar, uma espécie de pensamento proibido, faça dessa possibilidade objeto de imaginação mais apetecível. Mas a verdade é que ambos os livros são muito parcos em termos imaginativos, talvez porque a sê-lo teriam de embarcar pelo puro género de horror, o que acabaria por deitar a perder a componente dramática. Fica-me a faltar leitura de “Fatherland” (1993) de Robert Harris, mas a julgar por estes dois e algumas críticas que li, quer-me parecer que já não será para mim.


Tenho de dizer que a obra de Roth não se foca concretamente na história alternativa da Alemanha ganhar a Guerra, mas antes na alternativa dos EUA não participarem na Guerra. Mas logo aí acaba por ficar curta a digressão de Roth, já que o enredo acaba por avançar muito pouco. Em termos cronológicos somos encerrados num período de apenas 2 anos, entre 1940 e 1942. Roth foca-se assim mais sobre a possibilidade de um regime fascista poder tomar conta da “Terra da Liberdade”, transportando alguns dos eventos ocorridos na Europa para os EUA.

O livro tem a particularidade de fundir de forma muito rica o real e o ficcional alternativo, no sentido em que todos os intervenientes políticos são figuras reais da história americana, ao que se junta o facto da personagem principal, responsável por relatar o que está a acontecer, ser o próprio Philip Roth, na sua infância, dos 7 aos 9 anos. Ou seja, temos uma história alternativa impregnada de autenticidade vívida. Roth é judeu, nasceu em 1933 em New Jersey, e aí vivia no período relatado. Por isso a leitura ganha toda uma componente, apesar de paradoxal, autobiográfica, uma vez que Roth recorre às suas memórias reais para nos dar a ver o mundo dessa época pelos olhos de uma criança judia. Porque mesmo distante da Europa, seria inevitável para as crianças nos EUA que ouviam os pais comentar o que se passava na Europa, ver os jornais e as notícias nas salas de cinema, e não sentirem o peso dos eventos, da incerteza e nebulosa do que significavam.

Philip Roth com 9 anos, e a sua família: a mãe Bess, o pai Herman, e o irmão Sandy. New Jersey, 1942

O livro é de 2004 mas ganhou toda uma nova proeminência com a eleição de Trump em 2016. Muito sinceramente não vejo grande relação, ainda que o desenho da personagem e da eleição de Lindbergh se aproxime bastante do ocorrido com Trump, são tempos muito distintos, e na verdade são pessoas também muito distintas. É verdade que dá conta de alguma presciência por parte de Roth, mas mais relevante que isso, dá conta da sua enorme capacidade de observação e análise da sociedade Americana, da compreensão do que a move.

Como se não bastasse, a escrita de Roth é, como sempre, irrepreensível e puro deleite. Não sei como o consegue, nem como trespassa a barreira da tradução, mas ler, palavra atrás de palavra, atrás de frase, é um pouco como seguir o ritmo de um rio de água fresca em pleno verão escaldante, e de vez em quando pousar a mão sobre a frescura da água para sentir o interior de cada personagem.

quinta-feira, julho 06, 2017

"Homo Deus", de Yuval Noah Harari

Estamos no início do terceiro milénio, uma ferramenta online criada numa universidade americana permite aos rapazes e raparigas da elite da sociedade partilhar ideias, textos, fotografias, vídeos, estreitar laços e fortalecer relações. Em poucos anos essa ferramenta chega a mais universidades, ultrapassa as fronteiras dos campus e começa a ser usada livremente pela sociedade. Em 2017 são já dois mil milhões de pessoas que estão ligadas nessa rede. Todos os dias partilham ali sentires, preocupações, angústias, dores, alegrias, desejos e sonhos. Em 2025 começa-se a usar todo o conhecimento acumulado sobre cada um dos utilizadores, sobre os seus passado e futuro, sobre os seus gostos e profissões, as suas famílias e geografias, para aconselhar as pessoas nos processos de decisão: será boa altura para mudar de casa? de carro? e que tal começar a procurar novo emprego? e o casamento, ainda posso acreditar na minha mulher? As bases de dados sabem melhor do que cada um de nós o que é melhor para cada um individualmente, porque a todos conhece melhor do que cada um a si mesmo. Isto poderia servir de introdução à narrativa que Harari tem para nos contar neste seu segundo livro, "Homo Deus: A Brief History of Tomorrow".


Nada disto é novo, já vimos esta história ser contada de inúmeras maneiras — sendo os mais próximos, “Matrix”, “Terminator” ou "AI: Artificial Intelligence" — cada uma mais distópica que a outra, mas Harari não está aqui para apresentar tragédias, não permitindo que o seu discurso seja de algum modo contaminado por melancolias e pessimismos bem conhecidos destas visões apocalípticas. Harari fala mais como um arqueólogo do futuro que olha para a origem, apogeu e declínio do homo sapiens, dando conta do modo como os eventos se foram sucedendo pautando tudo por um tom de perfeita normalidade e sustentado rigor. Se existe algo em que todos estão de acordo sobre Harari, é esta sua capacidade de distanciamento, síntese, e ressignificação do mundo em que vivemos e poderemos vir a viver.

No primeiro livro conhecemos as três grandes revoluções históricas que dão sentido à evolução da espécie 'Homo Sapiens': a cognitiva, a agricultura e a científica. A primeira que nos permitiu começar a aprender e a comunicar. A segunda que nos permitiu dar resposta às necessidades fisiológicas. A terceira que nos permitiu começar a interrogar e a compreender a nós mesmos. Neste segundo livro, Harari propõe-se ir além da revolução científica, ou seja além do presente. A discussão centra-se sobre a razão da própria razão. Separando a inteligência da consciência, é possível pensar a progressão dessa competência de que todos os animais são dotados, com maiores e menores qualidades. A grande questão acaba por se colocar sobre a motivação dessa progressão e consequentemente da essência da consciência, daquilo que a define ou daquilo que nos define. Para isso Harari trabalha, como não podia deixar de ser, uma análise histórica do modo como ao longo dos últimos milénios foi progredindo a significação daquilo que somos, da forma como nos vemos e aceitamos.

As primeiras civilizações acreditaram no poder das estrelas, na sua geometria para ditar os nossos destinos. Depois o vieram as várias religiões, cada uma com o seu Deus, e deixámos de olhar para as estrelas em busca de respostas, passámos a aceitar as palavras inscritas nas suas bíblias, tudo podia ser determinado por aquelas palavras, aqueles mandamentos. Mas com a revolução da ciência veio todo um novo modo de ver, deixámos de procurar fora de nós, começámos a procurar as repostas a partir de dentro, procurando atribuir valor ao que nos faz felizes e infelizes. Harari considera que este é o estádio atual, e atribui-lhe o rótulo simples de Humanismo.

Isto permitiu o avanço da razão, porque a emoção a justificava. Compreender-se o ser-se humano, permitia a libertação da dor e o abraçar da paixão e do amor. O progresso era não só apelativo, como tinha um propósito. As emoções assentes em milhares de anos de evolução natural eram aquilo que melhor nos servia na condução do nosso dia-a-dia. Tínhamos assim passado, de conhecimento escrito por meia-dúzia de pessoas em livros, para conhecimento acumulado por milhões de seres-humanos ao longo de milhares de anos, registado no nosso DNA.

A questão que se começa então a colocar é, e a seguir? O que nos trará o pós-humanismo? Serão os sentimentos o nosso último reduto? Quantas vezes nos arrependemos por nos deixar levar pelos sentimentos e emoções. Quantas vezes questionámos que deveríamos ter dado ouvidos à razão. Então e se tivéssemos alguém ou algo, que pudesse não só aceder a todo esse conhecimento acumulado nos nossos genes, e ao conhecimento acumulado nos genes de todas as outras pessoas, não estaríamos num outro patamar de capacidade de tomada de decisões?
"After centuries of economic growth and scientific progress, life should have become calm and peaceful, at least in the most advanced countries. If our ancestors knew what tools and resources stand ready at our command, they would have surmised we must be enjoying celestial tranquillity, free of all cares and worries. The truth is very different. Despite all our achievements, we feel a constant pressure to do and produce even more.” 
“On the collective level, governments, firms and organisations are encouraged to measure their success in terms of growth, and to fear equilibrium as if it were the Devil. On the individual level, we are inspired to constantly increase our income and our standard of living. Even if you are quite satisfied with your current conditions, you should strive for more. Yesterday’s luxuries become today’s necessities. If once you could live well in a three-bedroom apartment with one car and a single desktop, today you need a five-bedroom house with two cars and a host of iPods, tablets and smartphones." 
"It wasn’t very hard to convince individuals to want more. Greed comes easily to humans. The big problem was to convince collective institutions such as states and churches to go along with the new ideal. For millennia, societies strove to curb individual desires and bring them into some kind of balance. It was well known that people wanted more and more for themselves, but when the pie was of a fixed size, social harmony depended on restraint. Avarice was bad. Modernity turned the world upside down. It convinced human collectives that equilibrium is far more frightening than chaos, and because avarice fuels growth, it is a force for good. Modernity accordingly inspired people to want more, and dismantled the age-old disciplines that curbed greed.”
Se em vez de reagir a uma atitude do nosso chefe, namorado ou filho a partir da nossa análise de prós e contras, tivéssemos um assistente virtual, que nos conhece melhor do que nós mesmos, porque pode a todo momento ver tudo aquilo que somos, enquanto nós estamos limitados ao que as nossas emoções, em cada momento, triam para o nosso consciente a ser aplicado em cada situação. Se por sua vez este assistente conhecesse também a outra pessoa envolvida no conflito. E ainda, ser este assistente dotado de um sistema de razão altamente evoluído, capaz de prever milhões e milhões de resultados das diferentes respostas num conflito, como se de jogadas de xadrez se tratasse. Com certeza faríamos melhor em confiar no seu conselho, e esquecer as nossas emoções. Harari chama a isto as novas religiões do futuro — o Dataísmo, fé baseada em informação e dados. Deixámos as estrelas, depois os deuses, e agora preparamo-nos para deixar as emoções!
“Yet in the twenty-first century, feelings are no longer the best algorithms in the world. We are developing superior algorithms which utilise unprecedented computing power and giant databases. The Google and Facebook algorithms not only know exactly how you feel, they also know a million other things about you that you hardly suspect. Consequently you should now stop listening to your feelings, and start listening to these external algorithms instead. What’s the use of having democratic elections when the algorithms know how each person is going to vote, and when they also know the exact neurological reasons why one person votes Democrat while another votes Republican? Whereas humanism commanded: ‘Listen to your feelings!’ Dataism now commands: ‘Listen to the algorithms! They know how you feel."
Chegados aqui, poderíamos começar por perguntar a razão de uma democracia ou de um voto, quando os algoritmos conseguem saber com grande exatidão, em que partido cada um de nós vai votar. Quando os algoritmos sabem melhor do que qualquer um de nós, o que é melhor para nós em cada momento. E porque as emoções não são mais do que meros algoritmos bioquímicos limitados na razão e alcance. Porque um pequeno comprimido pode fazer a diferença entre estar bem disposto e conseguir realizar um exame e tirar boa nota, ou reprovar e ficar um ano empatado. E quando os dados e algoritmos conseguem responder a tudo, e nós não percebemos sequer como o fazem, os dados deixam de ser meros dados, e passam a ser novos deuses.
“Every day millions of people decide to grant their smartphone a bit more control over their lives or try a new and more effective antidepressant drug. In pursuit of health, happiness and power, humans will gradually change first one of their features and then another, and another, until they will no longer be human.” 
Tudo isto é pura especulação, com uma gigantesca cadeia de “ses” pelo caminho. O mais interessante de tudo é o modo brilhante como Harari constrói toda a argumentação, interligando passado, presente e futuro, biologia e história, religião e computação. Harari vai muito para além de muito daquilo que a ficção-científica nos tem dado, porque não se limita a contar uma história com meia-dúzia de dados novos, ele constrói um universo inteiro de sustentação para tudo o que afirma. Claro que existem críticas, a especulação não é imune, nem tem interesse em sê-lo, a especulação é pura estimulação do pensamento crítico.

Assim podemos começar pelo facto de tudo isto ser pensado na base de uma sociedade que continuará o seu progresso científico e capitalista sem o menor problema. Algo que como aprendemos do nosso passado é muito difícil, basta pensar nas grandes civilizações que tivemos: Babilónia, Grécia e Roma Antigas, Incas, Maias, etc. Não estamos, e dificilmente algum dia estaremos livres de tudo poder simplesmente colapsar, seja por más decisões nossas (alterações climáticas), seja por epidemias ou mil e uma outras situações.

A Ilha da Páscoa é um exemplo clássico do colapso de sociedades humanas.

Em segundo lugar, a questão emocional. Harari usa um exemplo que é paradigmático do mundo das artes, mas que ele usa aqui a partir do angulo das máquinas. Fala-nos então dos experimentos musicais com IA de David Cope, em que um algoritmo escreveu uma composição musical imitando o estilo de Bach, dando-o a ouvir a pessoas que se manifestariam interiormente comovidas até ao momento em que lhes era revelado não ser Bach mas uma máquina o autor da peça. Mas isto não é nada de novo, aconteceu em n experimentos antes, realizados com crianças, com leigos, etc. sendo o efeito sempre o mesmo que acontece aqui. Ora o problema destes experimentos acaba por ser o retirar da equação a consciência daquilo que somos, e daquilo que o objeto representa para nós. Uma obra de arte não existe sem alguém que a experiencie, como dizia Eco, mas também não existe sem alguém que a crie. Ou seja, a obra de arte é mais do que o objeto, é o contexto da criação e fruição desse objeto. Porque a fruição não é mera filtragem dos sentidos humanos, é antes um diálogo entre aquilo que os sentidos filtram e o conhecimento detido sobre o tal contexto da obra.

Um exemplo clássico para se compreender o alcance do impacto desse contexto, é o caso do Picasso na sala de estar. A pessoa que vive numa casa, reconhecendo na sua parede uma tela como autêntica de Picasso, mudará radicalmente o seu sentimento para com essa tela, que não terá mudado um átomo, no momento em que um avaliador lhe disser que é apenas uma imitação de algo que Picasso, não pintou nem sequer nunca imaginou. Ou seja, todo o contexto cai, e com ele caem os alicerces que sustentam mentalmente a experiência daquele objeto. Porque os objetos só valem pelas narrativas que lhes colamos. Porque o mundo em que vivemos é feito de histórias, e são estas que alimentam os nossos desejos e vontade.

Mas também por isto, aceito, que podemos vir a fazer parte de outras narrativas, que vão para além do humano. As gerações anteriores às nossas nunca se conseguiram libertar das religiões em que foram criadas. Para elas o autor da tela era Deus que através de um humano, não importa qual, produzia a obra. Hoje nós acreditamos que a tela é produzida por esse humano. No futuro poderemos simplesmente acreditar que a tela é produzida por algoritmos que sabem melhor do que qualquer artista, aquilo que eu, ser individual, mais aprecio.

Mas aqui levanta-se um terceiro problema. Os algoritmos que nos controlarão, não poderão criar narrativas para cada um de nós individualmente, já que precisamos da confirmação dos outros como nós, do sentimento gregário, da pressão social para viver, pelo menos enquanto vivermos com este DNA ultrapassado. E daí que um sistema centralizado poderá rapidamente colapsar, assim que tentar fazer felizes milhões de humanos que se continuarão a relacionar, já que a felicidade de uns representará a infelicidade de outros e desse modo farão emergir conflitos insanáveis. Claro que podemos pensar que estes algoritmos serão inteligentes como nós nunca poderemos ser, e que terão soluções para problemas que nunca imaginámos, mas isso não muda aquilo que somos, em termos de matéria e crenças, e de prazeres e desejos. Por outro lado, esta insanabilidade poderá ditar o fim da nossa própria espécie, quando os algoritmos se cansarem de nos propor soluções de vivência em sociedade, sem sucesso, tal como explica o Arquiteto da trilogia de “Matrix”.


Último ponto crítico, e este o próprio Harari o aponta, embora o faça já só mesmo no virar das últimas páginas. Serão os dados, os sistemas de informação tal como os conhecemos hoje, capazes de traduzir completamente a consciência humana? Será possível criar algoritmos que dêem conta de todas as dimensões daquilo que aceitamos como, estar vivo?

Questões para que não temos respostas. Críticas, mas críticas que são provocadas pela leitura de Harari, que não se resume ao que aqui discuto, existe muito mais por onde pegar e discutir neste livro. Cada capítulo tem a sua cota parte de abordagens perspicazes do quotidiano, normalmente suportadas com argumentos que nos obrigam a parar e ponderar sobre aquilo que todos os dias fazemos de modo automático sem nos questionarmos porquê.


Links para saber mais:
"Sapiens", porque dominamos o planeta?