sábado, fevereiro 11, 2017

"O Inimigo da Classe"

"Class Enemy" (2013) é um filme europeu (Eslovénia) intensamente instigador, porque trata um tema com o qual todos temos de lidar, a Escola, de forma fracturante e perfurante. Tudo é questionado, pouco ou nada é defendido, deixando o espetador à sua própria mercê.




Um professor vem substituir uma colega grávida no ensino de alemão, numa classe de finalistas de liceu. O cenário é contemporâneo, tipicamente ocidental, com os alunos a arrogarem-se o direito de tudo questionar e os professores a preferirem passar despercebidos. Mas o novo professor tem uma postura distinta, defende uma ideologia: “a escola não é um direito, é um privilégio”. E essa sua postura vai provocar uma completa reviravolta em toda a escola, no posicionamento dos alunos, professores, e pais, sem contudo conduzir a respostas fechadas.

Passei metade do filme a questionar-me sobre os métodos de Supan, porque acreditando na sua justeza, não acredito na sua eficácia. Não acredito que se possa obter o melhor de um ser humano pela estimulação negativa. O filme comete um erro, porque não realiza um verdadeiro contraponto, já que coloca face a face extremos, o professor Supan e a psicóloga da escola, ambos incapazes de comunicar e chegar aos alunos. Aliás, a própria situação que tudo despoleta (suicídio) é excepcional e complexa, não existindo um modo de lidar com a mesma, tornando ainda mais complicada a leitura do que verdadeiramente está a acontecer com os jovens e a escola.

A obra suporta-se em vários autores como o esloveno Ivan Cankar, ou Thomas Mann para avançar muitas das suas ideias, nomeadamente no que diz respeito ao suicídio que trespassa todo o filme. Rok Bicek quer claramente elevar o teor da discussão, quer que nos questionemos sobre o todo, porque a escola não é apenas a escola, é Tudo.
“Learning means not knowing, wanting means not being able to.”
Ivan Cankar
E por isso passei a outra metade a questionar-me sobre a real função da escola na nossa sociedade. Quando se reduz a escola a mero local de transmissão de conhecimentos, esquecemos o quão pouco disso ela na verdade é. Existem vários momentos no filme em que isto é tão bem evidenciado, e muito bem apresentado, nas dinâmicas inter-pares dos alunos, dos professores, dos pais, e entre cada um destes grupos. Ou ainda, em tudo aquilo que vive emocionalmente cada um daqueles jovens durante o período de escola, ou tudo aquilo com que um professor tem que lidar que vai muito para além de matéria educativa.

Seria tudo mais simples, se pudéssemos à entrada das salas de aula, despir o fato emocional e permitir apenas à razão nelas entrar. Mas o ser humano não é feito de razão porque ela não ocorre sem a emoção. Não perceber isto em pleno século 21, é atroz.
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